Decepções dos pais em relação aos filhos: ajustando expectativas

O processo de criação e educação dos filhos envolve expectativas e idealizações por parte dos pais que, na maior parte das vezes, não se concretizam ao longo do tempo. Como lidar com isso? Como enfrentar as decepções inerentes à constatação de que nossos filhos não são *exatamente* aquilo que sonhamos ou que planejamos para eles? Sobre o tema, confira o artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Gina Khafif Levinzon.

Decepções dos pais em relação aos filhos: ajustando expectativas

Por Gina Khafif Levinzon*

Segundo Freud, encontramos na atitude dos pais afetuosos em relação aos filhos uma revivescência do seu próprio narcisismo, ou seja, do amor por si mesmo. Os pais lhes atribuem todas as perfeições, e esperam que satisfaçam seus desejos e sonhos não realizados: os filhos não passarão pelas mesmas dificuldades pelas quais eles próprios passaram. Serão o “centro e o âmago da criação, Sua Majestade o Bebê ”, como os pais se imaginavam quando muito pequenos. A própria imortalidade é alcançada por meio dos filhos, já que são sentidos como os continuadores do legado dos pais.

Diante disso podemos compreender, em parte, os motivos para os sentimentos de decepção em relação ao filho. Projetam-se nele expectativas que correspondem a projetos pessoais dos pais e que muitas vezes não levam em conta a especificidade própria da criança ou do jovem. Mesmo que o filho tente se encaixar, muitas vezes isso foge ao seu alcance.

Os pais querem acreditar que depende apenas deles o destino de seus filhos: se os educarem “de modo correto”, eles serão os adultos que idealizaram. Tal fantasia faz parte do vértice narcisista em que se olha a si mesmo como o centro de tudo o que ocorre no mundo. A realidade mostra, no entanto, que não há filhos perfeitos e nem pais perfeitos. Muitos são os fatores que determinam a personalidade de uma criança. Os filhos decepcionarão os pais, em maior ou menor grau, ao longo de seu desenvolvimento. Os pais cometerão erros que podem ser sentidos como inócuos ou até ser considerados desastrosos pelos filhos em algum momento de sua história.

Muitas dificuldades que os pais tiveram quando crianças são reeditadas na relação com o filho. A forma com a qual lidam com essas dificuldades, normalmente num plano inconsciente, pode levar o filho aos comportamentos que mais reprovam. A transferência excessiva de suas próprias angústias e expectativas representa para o filho um peso excessivo, maior do que ele consegue suportar, com grande probabilidade de turbulências e decepção, especialmente no período da adolescência. Nesses casos os pais necessitam de ajuda psicológica para que possam encarar sua vida própria sem designar outro para este fim.

Pais que superprotegem os filhos não permitem que eles tenham o espaço necessário de aprendizado e de erro para lidar consigo mesmos e com o mundo de forma equilibrada. Como consequência os filhos crescem fragilizados e despreparados para enfrentar a vida real.

Encontramos hoje em dia crianças com uma agenda de atividades tão cheia que se equipara a de um adulto e mal têm tempo para brincar livremente. Por trás estão os pais, desejosos de que seus filhos sejam muito inteligentes, excelentes esportistas… na realidade eles têm a missão de estimular a autoestima e corresponder aos anseios de admiração dos próprios pais

Caminhos possíveis

Como evitar, prevenir ou lidar com as decepções em relação à prole? É necessário compreender o que se passa com o filho e consigo mesmo. Quando um comportamento tem um significado podemos inseri-lo em um contexto, refletir a respeito e encontrar as melhores formas de solucioná-lo.

Colocar-se no lugar do filho se revela extremamente útil. Como se sente aquela pessoa? Como era você na idade dela? Sair de si mesmo e olhar pelo ângulo do outro fornece um campo de visão valioso para se lidar com as diferenças.

Criar filhos representa um desafio à capacidade dos pais de se confrontar com o imprevisto que é trazido pela existência singular do outro. Exige flexibilidade, capacidade de elaborar os lutos de suas próprias expectativas depositadas neles e a possibilidade de aprender com a experiência.

O sentimento de existir como uma pessoa própria, singular, representa a base de uma vida feliz. Sonhamos com o que serão nossos filhos, e desta forma investimos neles um olhar essencial, mas é importante que consideremos que nossos sonhos serão substituídos pela realidade possível. Por outro lado, sabemos que nossas sementes frutificarão, em alguma medida, e que isso perpetua o ciclo interminável da vida…

Referências bibliográficas
Freud, S. (1914) – Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Obras completas.V. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

*Gina Khafif Levinzon é psicanalista e membro da SBPSP

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