O fim de um processo de análise e a noção de cura em psicanálise.

É comum ouvirmos que psicanálise é um processo longo e interminável. Será mesmo? Como e quando saber que um processo de análise chegou ao fim? Na Psicanálise, como se trabalha o conceito de “cura”? É possível utilizar esse parâmetro, quando lidamos com o adoecimento psíquico?
Abaixo, segue interessante entrevista com a psicanalista e membro da SBPSP, Maria Olympia França*, sobre o tema.

1) Como saber em que momento um processo de análise chegou ao fim? Essa é uma decisão que deve vir do analista ou do analisando? Quando vem do analisando, a vontade de parar deve sempre ser interpretada como um trabalho da resistência?

Se compreendermos o processo de análise como um instrumento auxiliar para usufruirmos a vida, em princípio, ele poderia não ter fim.
No entanto, quando a análise é buscada para eliminar determinados sintomas que causam sofrimento e estreitamento da vida, podemos considerar que a eliminação ou diminuição desses sintomas é um sinal de que o processo pode ser interrompido. Neste momento, o paciente poderá sentir-se apto a tocar sua vida de maneira satisfatória, sem a necessidade da análise.
Também precisamos levar em conta a proposição de Freud segundo a qual uma análise não vai além do que as defesas (conflitos) do analista permitem. O ideal é que o analista tenha condições de perceber esses limites e francamente os expor ao paciente.
Minha posição enquanto analista é a de que determinar o momento de término somente caberá a mim quando eu perceber que não tenho mais o que contribuir ao processo. A decisão de parar a análise sempre caberá ao paciente. No entanto, em determinados casos, o analista pode apontar ao paciente que aquele processo ainda não se esgotou e que existem recursos a serem desenvolvidos.
O desejo de parar, por parte do analisando, não equivale necessariamente a uma resistência negativa ao tratamento, mas por vezes uma resistência a se pensar mais feliz. Há pacientes que pedem a opinião do analista, outros não. Cabe ao analista respeitar a ambos.

2) Na Psicanálise, é comum trabalhar com a noção de ‘receber alta’? Se sim, quais critérios podem ser utilizados para se pensar nessa ‘alta’? Se não, o que define o fim de um processo analítico?

Nem todos sabem que, na concepção de Freud, a finalidade última da Psicanálise é ajudar o homem a ser mais feliz. Nessa perspectiva, será que faz sentido pensarmos em “alta”? Haverá “alta” para sermos felizes ou critérios para saber o quanto ainda podemos fazer “render” nossos potenciais?
Como enfatizei na questão 1, o término de uma análise pode decorrer de diferentes motivações (do analista ou do analisando) e não há como generalizarmos.

3) Pensando na questão da alta associada à ideia de cura, em que medida se pode (ou não) falar em cura dos sofrimentos mentais?

Não há mal que nunca acabe nem bem que sempre dure. Aceitando este ditado popular, nos perguntaríamos: cura de quê? Por se tratar de “doença da alma”, quais as circunstâncias e sintomas que indicam e que, nós analistas, poderemos nos arrogar o direito de considerarmos uma doença a ser tratada?

4) De forma geral, como a Psicanálise compreende a perspectiva da cura?

O sofrimento mental faz parte da vida dos humanos. Não há “cura” para ele enquanto tal. O trabalho analítico nos tem revelado que a permeabilidade a esse tipo de sofrimento não somente varia de pessoa para pessoa como poderá ser bastante minorado na medida da maior ou menor capacidade de conhecê-los e administrá-los. A proposta da psicanálise é de nos ajudar nessa tarefa. Diz Clarice Lispector: a pior dor é a de não podermos sentir nossa própria dor..

Há, porém, sintomas que, de tão dolorosos, interrompem o curso normal da sobrevivência. Em relação a estes poderíamos pensar na ideia de cura. Temos observado que o trabalho da análise proporciona que a tristeza humana seja suportável e em casos pontuais, tenha fim. Também a capacidade de ser feliz pode ser expandida na medida em que conhecemos os nossos conflitos. Muitos deles são resolvidos, ou pelo menos encaminhados, pelo simples fato de tomarmos conhecimento.
Quando ganhamos confiança e maior autoestima, podemos encontrar alegria em situações familiares e profissionais que antes passavam despercebidas. Com isto deixaremos de ser reféns de sofrimentos desnecessários.

*Maria Olympia França é psicanalista e membro da SBPSP.

2 comentários

  1. Muito interessante.Parece não haver uma fronteira bem definida entre a psicologia e a psicanálise;já para a psiquiatria ,a linha fronteiriça mais aparente deve ser a utilização de psicofármacos

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