Mês: dezembro 2014

Decepções dos pais em relação aos filhos: ajustando expectativas

O processo de criação e educação dos filhos envolve expectativas e idealizações por parte dos pais que, na maior parte das vezes, não se concretizam ao longo do tempo. Como lidar com isso? Como enfrentar as decepções inerentes à constatação de que nossos filhos não são *exatamente* aquilo que sonhamos ou que planejamos para eles? Sobre o tema, confira o artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Gina Khafif Levinzon.

Decepções dos pais em relação aos filhos: ajustando expectativas

Por Gina Khafif Levinzon*

Segundo Freud, encontramos na atitude dos pais afetuosos em relação aos filhos uma revivescência do seu próprio narcisismo, ou seja, do amor por si mesmo. Os pais lhes atribuem todas as perfeições, e esperam que satisfaçam seus desejos e sonhos não realizados: os filhos não passarão pelas mesmas dificuldades pelas quais eles próprios passaram. Serão o “centro e o âmago da criação, Sua Majestade o Bebê ”, como os pais se imaginavam quando muito pequenos. A própria imortalidade é alcançada por meio dos filhos, já que são sentidos como os continuadores do legado dos pais.

Diante disso podemos compreender, em parte, os motivos para os sentimentos de decepção em relação ao filho. Projetam-se nele expectativas que correspondem a projetos pessoais dos pais e que muitas vezes não levam em conta a especificidade própria da criança ou do jovem. Mesmo que o filho tente se encaixar, muitas vezes isso foge ao seu alcance.

Os pais querem acreditar que depende apenas deles o destino de seus filhos: se os educarem “de modo correto”, eles serão os adultos que idealizaram. Tal fantasia faz parte do vértice narcisista em que se olha a si mesmo como o centro de tudo o que ocorre no mundo. A realidade mostra, no entanto, que não há filhos perfeitos e nem pais perfeitos. Muitos são os fatores que determinam a personalidade de uma criança. Os filhos decepcionarão os pais, em maior ou menor grau, ao longo de seu desenvolvimento. Os pais cometerão erros que podem ser sentidos como inócuos ou até ser considerados desastrosos pelos filhos em algum momento de sua história.

Muitas dificuldades que os pais tiveram quando crianças são reeditadas na relação com o filho. A forma com a qual lidam com essas dificuldades, normalmente num plano inconsciente, pode levar o filho aos comportamentos que mais reprovam. A transferência excessiva de suas próprias angústias e expectativas representa para o filho um peso excessivo, maior do que ele consegue suportar, com grande probabilidade de turbulências e decepção, especialmente no período da adolescência. Nesses casos os pais necessitam de ajuda psicológica para que possam encarar sua vida própria sem designar outro para este fim.

Pais que superprotegem os filhos não permitem que eles tenham o espaço necessário de aprendizado e de erro para lidar consigo mesmos e com o mundo de forma equilibrada. Como consequência os filhos crescem fragilizados e despreparados para enfrentar a vida real.

Encontramos hoje em dia crianças com uma agenda de atividades tão cheia que se equipara a de um adulto e mal têm tempo para brincar livremente. Por trás estão os pais, desejosos de que seus filhos sejam muito inteligentes, excelentes esportistas… na realidade eles têm a missão de estimular a autoestima e corresponder aos anseios de admiração dos próprios pais

Caminhos possíveis

Como evitar, prevenir ou lidar com as decepções em relação à prole? É necessário compreender o que se passa com o filho e consigo mesmo. Quando um comportamento tem um significado podemos inseri-lo em um contexto, refletir a respeito e encontrar as melhores formas de solucioná-lo.

Colocar-se no lugar do filho se revela extremamente útil. Como se sente aquela pessoa? Como era você na idade dela? Sair de si mesmo e olhar pelo ângulo do outro fornece um campo de visão valioso para se lidar com as diferenças.

Criar filhos representa um desafio à capacidade dos pais de se confrontar com o imprevisto que é trazido pela existência singular do outro. Exige flexibilidade, capacidade de elaborar os lutos de suas próprias expectativas depositadas neles e a possibilidade de aprender com a experiência.

O sentimento de existir como uma pessoa própria, singular, representa a base de uma vida feliz. Sonhamos com o que serão nossos filhos, e desta forma investimos neles um olhar essencial, mas é importante que consideremos que nossos sonhos serão substituídos pela realidade possível. Por outro lado, sabemos que nossas sementes frutificarão, em alguma medida, e que isso perpetua o ciclo interminável da vida…

Referências bibliográficas
Freud, S. (1914) – Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Obras completas.V. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

*Gina Khafif Levinzon é psicanalista e membro da SBPSP

O fim de um processo de análise e a noção de cura em psicanálise.

É comum ouvirmos que psicanálise é um processo longo e interminável. Será mesmo? Como e quando saber que um processo de análise chegou ao fim? Na Psicanálise, como se trabalha o conceito de “cura”? É possível utilizar esse parâmetro, quando lidamos com o adoecimento psíquico?
Abaixo, segue interessante entrevista com a psicanalista e membro da SBPSP, Maria Olympia França*, sobre o tema.

1) Como saber em que momento um processo de análise chegou ao fim? Essa é uma decisão que deve vir do analista ou do analisando? Quando vem do analisando, a vontade de parar deve sempre ser interpretada como um trabalho da resistência?

Se compreendermos o processo de análise como um instrumento auxiliar para usufruirmos a vida, em princípio, ele poderia não ter fim.
No entanto, quando a análise é buscada para eliminar determinados sintomas que causam sofrimento e estreitamento da vida, podemos considerar que a eliminação ou diminuição desses sintomas é um sinal de que o processo pode ser interrompido. Neste momento, o paciente poderá sentir-se apto a tocar sua vida de maneira satisfatória, sem a necessidade da análise.
Também precisamos levar em conta a proposição de Freud segundo a qual uma análise não vai além do que as defesas (conflitos) do analista permitem. O ideal é que o analista tenha condições de perceber esses limites e francamente os expor ao paciente.
Minha posição enquanto analista é a de que determinar o momento de término somente caberá a mim quando eu perceber que não tenho mais o que contribuir ao processo. A decisão de parar a análise sempre caberá ao paciente. No entanto, em determinados casos, o analista pode apontar ao paciente que aquele processo ainda não se esgotou e que existem recursos a serem desenvolvidos.
O desejo de parar, por parte do analisando, não equivale necessariamente a uma resistência negativa ao tratamento, mas por vezes uma resistência a se pensar mais feliz. Há pacientes que pedem a opinião do analista, outros não. Cabe ao analista respeitar a ambos.

2) Na Psicanálise, é comum trabalhar com a noção de ‘receber alta’? Se sim, quais critérios podem ser utilizados para se pensar nessa ‘alta’? Se não, o que define o fim de um processo analítico?

Nem todos sabem que, na concepção de Freud, a finalidade última da Psicanálise é ajudar o homem a ser mais feliz. Nessa perspectiva, será que faz sentido pensarmos em “alta”? Haverá “alta” para sermos felizes ou critérios para saber o quanto ainda podemos fazer “render” nossos potenciais?
Como enfatizei na questão 1, o término de uma análise pode decorrer de diferentes motivações (do analista ou do analisando) e não há como generalizarmos.

3) Pensando na questão da alta associada à ideia de cura, em que medida se pode (ou não) falar em cura dos sofrimentos mentais?

Não há mal que nunca acabe nem bem que sempre dure. Aceitando este ditado popular, nos perguntaríamos: cura de quê? Por se tratar de “doença da alma”, quais as circunstâncias e sintomas que indicam e que, nós analistas, poderemos nos arrogar o direito de considerarmos uma doença a ser tratada?

4) De forma geral, como a Psicanálise compreende a perspectiva da cura?

O sofrimento mental faz parte da vida dos humanos. Não há “cura” para ele enquanto tal. O trabalho analítico nos tem revelado que a permeabilidade a esse tipo de sofrimento não somente varia de pessoa para pessoa como poderá ser bastante minorado na medida da maior ou menor capacidade de conhecê-los e administrá-los. A proposta da psicanálise é de nos ajudar nessa tarefa. Diz Clarice Lispector: a pior dor é a de não podermos sentir nossa própria dor..

Há, porém, sintomas que, de tão dolorosos, interrompem o curso normal da sobrevivência. Em relação a estes poderíamos pensar na ideia de cura. Temos observado que o trabalho da análise proporciona que a tristeza humana seja suportável e em casos pontuais, tenha fim. Também a capacidade de ser feliz pode ser expandida na medida em que conhecemos os nossos conflitos. Muitos deles são resolvidos, ou pelo menos encaminhados, pelo simples fato de tomarmos conhecimento.
Quando ganhamos confiança e maior autoestima, podemos encontrar alegria em situações familiares e profissionais que antes passavam despercebidas. Com isto deixaremos de ser reféns de sofrimentos desnecessários.

*Maria Olympia França é psicanalista e membro da SBPSP.

Transferência

Compreendida como um instrumento do método psicanalítico, a transferência é um fenômeno que se dá na relação analítica, fundamental para o processo. ​P​or meio dela a dupla poderá trabalhar aspectos emocionais inconscientes, que vêm à tona na medida em que reeditamos​ e revivemos,​ ​no tratamento, conflitos e emoções gerador​e​s de sofrimento. O artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Elsa Susemihl, desenvolve o tema com objetividade e clareza.

Transferência

Por Elsa Vera Kunze Post Susemihl*

A chamada transferência é um conceito fundamental da Psicanálise. Foi descoberta por Freud e ocupa os psicanalistas até hoje, tanto na prática clínica quanto na reflexão teórica.

A transferência se apresenta por meio de determinados modelos de relacionamento com o mundo e com as pessoas. Todos nós os temos mas, às vezes, eles podem estar ligados a sintomas e grande sofrimento psíquico.

Pode ser observada naquelas atitudes e reações emocionais que são sempre iguais e que se repetem, ainda que a situação seja diferente. Podemos pensar em uma pessoa que sempre tem problemas com o chefe, por exemplo, sente-se injustiçada. Muda de emprego inúmeras vezes mas, invariavelmente, encontra um chefe que a trata injustamente. Ou uma pessoa que sofre intensamente de ciúmes e em diferentes relacionamentos/casamentos, o sentimento reaparece e gera a mesma insegurança e sofrimento.

A Psicanálise investiga, no mundo inconsciente, as raízes dessas repetições. Sabemos, desde Freud, que somos regidos por uma área inconsciente da nossa mente. É nessa área que se encontra a origem dos fenômenos transferenciais.

O aparelho psíquico se forma a partir dos fortes vínculos emocionais com os pais ou primeiros cuidadores. As experiências emocionais ligadas aos grandes conflitos com amor, ódio, inveja, ciúme, dependência etc são armazenadas na nossa mente inconsciente. A maneira como elas são vividas é absolutamente pessoal e suas marcas vão compor a nossa individualidade. Carregamos essas marcas vida afora e vamos repetindo a forma pela qual tivemos de lidar com as diferentes situações e conflitos desde estas primeiras experiências. Tudo isso se processa no nosso psiquismo sem que disso tenhamos consciência. Ou seja, transferimos aquilo que vivemos no início de nossa vida para outras situações da nossa vida atual, sem o sabermos.

A transferência se apresenta também na análise, de forma concentrada. Pelas condições especiais do trabalho analítico – uma relação de sigilo e confiança, com encontros regulares e freqüentes, com o uso do divã que propicia um olhar voltado para dentro – a observação dos fenômenos transferenciais é facilitada.

O analista e o analisando podem assim ter acesso ao mundo inconsciente, às fantasias e desejos, às emoções profundas que na atualidade do processo analítico se reapresentam de forma viva novamente. E dessa forma, durante o processo analítico, abre-se a possibilidade de encontrar novas direções e descobrir caminhos alternativos para antigos conflitos.

*Elsa Vera Kunze Post Susemihl é psicanalista e membro da SBPSP