Mês: novembro 2014

Métodos de investigação em Psicanálise

Neste post, discutiremos o uso e aplicação de um método de investigação em psicanálise conhecido como Procedimento de Desenhos-Estórias. O texto abaixo é assinado por Walter Trinca, psicólogo, mestre e doutor em Psicologia, psicanalista membro da SBPSP e especialista no assunto.

Procedimento de Desenhos-Estórias

Por Walter Trinca*

Introduzido em 1972, o Procedimento de Desenhos-Estórias (D-E) é uma técnica psicodinâmica de investigação da personalidade. Assim como a Hora de Jogo Diagnóstica (Aberastury, 1962) e o Jogo de Rabiscos (Winnicott, 1971), o D-E se constitui em uma estratégia de investigação ampla, e não um teste psicológico. Sua aplicação demanda ao examinando 5 unidades sequenciais de desenhos livres e cinco estórias que lhes são associadas imediatamente após cada desenho, seguidas de um “inquérito” e título da produção.

A junção das formas gráficas com as formas de percepção temática tem por objetivo a obtenção de informações sobre as experiências subjetivas, com ênfase na dinâmica inconsciente. Pode ser aplicado individualmente em crianças, adolescentes e adultos que conseguem se comunicar por desenhos e verbalizações; e é indicado nos primeiros contatos com o examinando.

O “inquérito” visa a ampliação das observações por meio de esclarecimentos e novas associações. O uso do D-E não se restringe a situações clínicas, podendo ser empregado em escolas, ambientes judiciais, médicos e outras situações em que os processos mentais necessitam ser investigados. O D-E pode proporcionar uma compreensão abrangente, quando combinado com as entrevistas, a anamnese e outros instrumentos psicológicos.

De modo geral, pode-se afirmar que as imagens gráfico-verbais contidas no D-E estão dentre aquelas que melhor se prestam à comunicação de emoções versáteis e sutis, porque sua natureza é descompromissada e lúdica. Permitem uma abordagem dos pontos conflitivos e dos comprometimentos emocionais por meio da associação livre. O D-E vai ao encontro dos pontos cruciais e dos focos nodais dos desajustamentos psíquicos. Quanto mais aberta e lúdica for a situação do exame, melhor se presta à emergência do desconhecido que necessita se tornar conhecido. Dessa forma, o D-E pode ser interpretado segundo princípios semelhantes à interpretação dos sonhos, preferencialmente pela livre inspeção do material. No conjunto da produção gráfico-verbal de um examinando, geralmente se encontra a convergência das partes em direção a uma comunicação unitária, inteira e indivisa.

*Walter Trinca é psicólogo, mestre e doutor em Psicologia Clínica e psicanalista membro da SBPSP.

Vergonha: entre o afeto e a moralidade

O desconforto gerado pelo sentimento de vergonha não é algo que, de imediato, podemos explicar. Ninguém gosta de sentir vergonha e, embora seja um dos afetos mais comuns e universais, não é fácil descrever o que é e exatamente de onde vem esse sentimento. No artigo abaixo, a psicanalista e membro da SBPSP, Marina K. Bilenky, desvela de forma concisa e ao mesmo tempo profunda o que é, qual é a origem e qual a importância desse afeto.

Vergonha

Por Marina K. Bilenky*

A vergonha é um sentimento doloroso. De origem narcísica, é ferida difícil de cicatrizar, permanece indelével na memória e está relacionada muitas vezes a situações de impotência. Sentimento social, surge quando o olhar do outro vê o que não deveria ser visto. É o rubor inoportuno, a umidade da pele, a tremedeira, o gaguejar, o branco. Revelação de uma falha sem reparação. A imagem manchada, a desqualificação. A vontade de sumir da face da terra. É a exposição de uma fraqueza, a perda das aparências e da dignidade – o mundo interior desmascarado aos olhos do outro.

A vergonha confunde-se com a culpa, mas são diferentes. Ambos são afetos relacionados à moralidade e servem como reguladores sociais do comportamento humano. Porém, a culpa é resultado de um mal causado ao outro, é dirigida a quem foi lesado, imaginaria ou verdadeiramente. Na vergonha, a imagem da própria pessoa é atingida. Na culpa, há reparação; na vergonha, não há como consertar a imagem manchada.

A vergonha aponta para uma falha na imagem do sujeito, como um defeito de fabricação. Já a culpa aponta para um ato humano ditado pela vontade e sempre relacionado a uma transgressão. A vergonha, mesmo quando aparece como resultado da exposição de uma transgressão, tem um caráter mais global — não é o ato em si que é julgado e, sim, a pessoa inteira.

A vergonha é um sentimento social. Surge diante do olhar do outro. Entra em cena quando o outro passa a existir conscientemente para a criança e, com ele, seu olhar. O olhar é parte fundamental do processo de constituição da subjetividade e a vergonha, que surge na tomada de consciência de si, é fundamental como sentimento que regula a relação do sujeito com o mundo que o cerca. Porém, um olhar muito crítico ou um olhar que não reconhece os desejos e necessidades da criança como legítimos e, portanto, merecedores de consideração e cuidados pode inibir ou prejudicar o desenvolvimento da criança.

É frequente o paciente evitar temas que lhe causem vergonha na análise. Mas também podemos assistir àqueles momentos em que ele se esforça para superá-la diante de alguém que se tornará testemunha daquilo que tão laboriosamente luta para esconder. Ao explorar esse sentimento, o sujeito amplia as possibilidades de lidar com suas questões, o que pode resultar em um aumento de suas relações pessoais dentro de seu meio social. Percebemos quanto o indivíduo se fecha e se protege por temer o julgamento e olhares críticos dos outros.

Aspectos importantes do mundo do paciente permanecem protegidos contra esse tipo de invasão e, consequentemente, tornam-se pouco acessíveis a ele próprio. Essa blindagem funciona como defesa contra qualquer aproximação que ameace a imagem desqualificada que o sujeito tem de si.

A vergonha, ao contrário da culpa, não pode ser recalcada nem esquecida. A saída é o encobrimento. O envergonhado procura esconder aquilo que provoca a vergonha, seja uma característica física ou de personalidade, seja uma situação que exponha, para ele, uma falha sua. A reação à exposição vem carregada de angústia e dá lugar a inibições, fechamento sobre si mesmo, impossibilidade de desenvolvimento.

O sofrimento dos indivíduos que têm dificuldade com a exposição se refere ao sentimento de que existe uma grande distância entre o que ele é e o que pensa que deveria ser para poder fazer parte do mundo ao qual deseja pertencer.

O envergonhado sente que os olhares o trespassam e que todos podem enxergar o que lhe vai por dentro. É vivência angustiante, pois o sujeito quer ser visto, mas teme ser visto demais. Assim, ele procura se tornar invisível e esconder qualquer coisa que possa ser considerada como imperfeição. Na impossibilidade de se arriscar, errar e aprender, a pessoa se paralisa.

A vergonha também pode surgir de repente, quando diante de alguma situação aparece uma fratura entre a imagem que se tem de si e a imagem ideal. O sujeito se vê em uma situação onde imagina que todos verão essa quebra. Devido a seu caráter cruel e castrador, a vergonha atua de modo a levá-lo a tentativas de inibir qualquer atividade que possa revelar essa falha.

A vergonha é sentimento multifacetado. Aparece com diferentes intensidades, podendo manifestar-se como simples pudor até atingir um grau de sofrimento intenso. Pode ser circunstancial ou existencial. A reação à vergonha, a depender de sua intensidade, pode causar desde bloqueios pontuais até impossibilidades de interação social.

Cabe a nós, psicanalistas, incluirmos em nosso trabalho uma escuta mais atenta para o sentimento de vergonha. Isto pode funcionar como porta de entrada para questões de ordem narcísica, iluminando aspectos do funcionamento psíquico do paciente que, muitas vezes, ficam protegidos devido a uma defesa mais ou menos intensa que leva ao isolamento e à inibição.

Mas não podemos esquecer que a vergonha é sentimento básico do ser humano, regulador dos vínculos sociais e mantenedor da dignidade.

*Marina Kon Bilenky é psicanalista e membro associado da SBPSP.

Querer não é poder

Qual é a importância de sabermos impor limites às crianças? Por que é tão difícil e, ao mesmo tempo, tão fundamental que possamos dizer “não”? Em que medida a experiência do “não” e a frustração são constitutivas e contribuem para o desenvolvimento emocional das crianças?
São essas as questões que norteiam o interessante artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Jassanan Amoroso Dias Pastore.

Por Jassanan Amoroso Dias Pastore*

Querer não é poder

Frustrar uma criança é impor-lhe limites, é dizer-lhe “não”, palavra que ninguém gosta de ouvir. A palavra “não” coloca um limite. Nós não podemos e nem devemos atender a todos os pedidos da criança porque os desejos têm uma medida muito maior do que a razão; nós queremos muito mais do que podemos. Mas sabemos o quanto é difícil para muitos pais exercerem a função de mostrar para a criança que querer não é poder.

Desde muito cedo o bebê escuta a palavra “não”, já que os pais querem protegê-lo de perigos dizendo “não pode”, “não pode mexer nisso”, “não pode comer aquilo”. Mas falar “não” para a criança é hoje uma situação que pode deixar os pais, avós e professores confusos e perdidos, pois eles costumam ouvir dois pontos de vista diferentes: de um lado, ouvem que não devem falar “não” para a criança, porque a traumatizariam e inibiriam seu desenvolvimento; de outro, ouvem que falar “não” para a criança é necessário para prepará-la para a dura realidade da vida, para discipliná-la e ajudá-la a se organizar e a amadurecer.

Na realidade, ambas as situações são fundamentais. É preciso tanto falar “não” como também dizer “sim”. Se evitarmos dizer “não” podemos nos sentir explorados e abusados pelo outro, e o outro não adquire a noção das limitações de cada pessoa.

Além disso, a criança só adquire o conhecimento do significado do “sim” se ela vive a experiência da negativa. Isso se dá, por exemplo, quando muito cedo na vida o bebê quer mamar e a mãe demora um pouco para atendê-lo. O bebê, então, não só ouve o “não” como vive a experiência da ausência, tem a sensação do “não”. Daí a criança vai aprendendo que não pode ter tudo o que deseja e na hora que deseja. Junto com essa experiência vai surgindo também a noção de que ela deseja algo.

Com o passar do tempo, a criança começa a ouvir o “não” dirigido às suas condutas, como “não pode fazer xixi no chão”, “não pode bater no irmãozinho”, etc. Embora desde cedo estejamos convivendo com as restrições, é muito difícil para as pessoas aceitar os limites. E muitas passam a vida inteira se rebelando contra eles, sonhando que podem eliminar os “nãos” da vida para daí se tornarem livres.

Mas, existem os limites em relação a nós mesmos: “não sei”, “não consigo”, “não tenho”, “não posso”. E, ainda, os limites das diversas pessoas com quem nos relacionamos: ele “não sabe”, ele “não está”, ele “não pode”. Além disso tudo, temos também os limites impostos pela lei e os da espécie humana. E, ainda mais, é preciso aguentar receber uma negativa, uma frustração, para daí ser capaz de dizê-la para o outro. Vejam o mar de limites com que nos defrontamos para viver. É desde pequeno que aceitamos, a duras penas, esses limites. É imprescindível que se aprenda a lidar com eles, porque não há possibilidade de evitá-los, o viver junto exige limites.

Observamos, com muita frequência, que as crianças não suportam ouvir “não” e reagem fazendo birra, esperneando, jogando-se no chão, enfim fazendo um carnaval. Em geral, para abafar o escândalo, os pais acabam por ceder, embora contrariados. E a criança vai criando a ideia não só de que sua agressividade tem muito poder, como também de que sendo agressiva ela pode conseguir o que deseja. Então surge o medo daquilo do que ela é capaz com sua agressividade, pois uma coisa é imaginar algo e outra é acontecer de fato. Portanto, sempre que possível, não deem muita importância para os acessos de fúria de seus filhos quando frustrados.

Muitos pais acham que é maldade um bebê ser submetido, tão precocemente, à experiência da frustração. Ao contrário: ela é inevitável e fundamental para o desenvolvimento de qualquer pessoa. É a partir da frustração, da ausência daquilo que o bebê quer que ele desenvolverá suas capacidades, como tentar substituir aquilo que ele não conseguiu por outra coisa, como imaginar a mãe, começar a pensar, aprender a berrar, reclamar, falar.

A criança pequena tem a ilusão de que é toda poderosa, o centro do mundo, e que tudo acontece por causa dela, que basta ela pensar para que aconteça. Com o passar do tempo ela vai percebendo que as coisas não são bem assim e que ela não é tão poderosa, não consegue tudo o que deseja e não é dona do mundo nem de ninguém. Enfim, ela vai conhecendo seus próprios limites e os dos outros, e entendendo que cada pessoa existe separada do outro e os outros vivem independentemente dela.

Se, por um lado, o “não” é uma espécie de estraga prazer, ele é também uma proteção e proporciona um sentimento de segurança. Uma criança dificilmente teria um desenvolvimento emocional e intelectual sem ter sofrido a presença do “não”, pois ela não conseguiria aprender a pensar e a falar.

*Jassanan Amoroso Dias Pastore é psicanalista e membro da SBPSP.

Psicanálise com crianças

Ao contrário do que muitos imaginam, a Psicanálise pode ser utilizada também no cuidado e tratamento de bebês e crianças pequenas. Foi a partir da segunda metade do século 20 que as psicanalistas Anna Freud e Melanie Klein deram início à psicanálise com crianças. Hoje, o método é bastante usado no tratamento e profilaxia de transtornos mentais. Sobre o tema, confira a ótima conversa abaixo, entre as psicanalistas Luciana Saddi* e Maria Cecília Pereira da Silva**, especialista no assunto.

Luciana: Como foi que você se interessou pelo trabalho analítico com bebês e crianças pequenas?

Maria Cecília: Ao estudar Psicopatologia do Bebê, com Serge Lebovici, descobri como intervenções nas relações iniciais pais/bebês, em poucas consultas, podiam fortalecer as funções parentais e solucionar sintomas de sofrimento emocional no bebê.
Evitar que dificuldade vinculares e sintomas se cristalizem é extremamente preventivo e profilático. E isso é apaixonante. Assim podemos ajudar psicanaliticamente, em poucas consultas, muitas pessoas.

Luciana: Quais as especificidades desse trabalho?

Maria Cecília: O trabalho se realiza preferencialmente nos primeiros 3 anos do bebê conjuntamente com os pais e outros irmãos. Eventualmente trabalhamos com os avós e babás também. As sessões duram entorno de uma hora e podem ocorrer entre 4 e 10 sessões ou mais, dependendo da situação. Não necessariamente são semanais. Muitas vezes atendemos em co-terapia. Ou seja, dois terapeutas para favorecer a continência oferecida à família. Às vezes propomos uma puericultura emocional e vamos acompanhando de tempos em tempos a interação e o desenvolvimento emocional do bebê.

Luciana: Quando pais, profissionais e cuidadores devem procurar a avaliação de um psicanalista?

Maria Cecília: Quando há dificuldades vinculares, dificuldades no sono ou alimentação, problemas com controle esfincteriano, irritabilidade, excesso de agitação, dificuldades na interação afetiva e intersubjetivas.

Luciana: O que mudou no campo da clínica de 0 a 3 anos, considerando os últimos 50 anos?

Maria Cecília: Cada vez mais cedo somos capazes de identificar transtornos do espectro autista e intervir precocemente muitas vezes impedindo a cristalização dos sintomas mais sérios.

Luciana: Por que o diagnóstico de transtornos do espectro autista (TEA) vem crescendo no mundo todo?

Maria Cecília: Em primeiro lugar porque aumentou o número de crianças com TEA e com isso os pesquisadores começaram a buscar sinais precoces desses transtornos. Estudam-se filmes caseiros de crianças diagnosticadas com TEA e a qualidade das interações intersubjetivas entre pais e bebês, assim como a disponibilidade emocional materna.
Antigamente, os pediatras só encaminhavam quando os sintomas se mantinham após os 3 anos e alguns, após os 6 anos ou quando os pais identificavam algo estranho e comparavam seus filhos com as outras crianças da escola. Hoje, as pesquisas mostram que a plasticidade cerebral permite que intervenções precoces transformem neurológica e emocionalmente quadros que mais tarde se tornariam crônicos.

Luciana: Como você vê a influência do mundo atual nos sintomas das crianças?

Maria Cecília: Cada vez mais cedo as crianças são expostas a brinquedos e atividades tecnológicas em detrimento do contato humano e algumas acabam estabelecendo uma preferência maior por objetos do que pela interação com seres humanos, dificultando o desenvolvimento de relações intersubjetivas e a mediação dos sentimentos e emoções.
A falta de redes parentais nas cidades grandes também deixa as mães muito desamparadas com a chegada de um bebê. Tanto os pais quanto os avós e comadres são importantes para embalar a dupla mãe-bebê nos momentos de estresse da mãe.
A disponibilidade emocional materna entra em disputa com as demandas cotidianas e contemporâneas, além das demandas profissionais, exigindo que as crianças se tornem rapidamente independentes e autônomas. Essa precocidade, muitas vezes, se transforma em sintomas como: fobias, obesidade, ecoprese, retraimento ou momentos de explosividade.

*Luciana Saddi é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

**Maria Cecília Pereira da Silva é Psicanalista, membro efetivo, analista de criança e adolescente e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, filiada à International Psychanalytic Association. Especialista em Psicopatologia do Bebê pela Université Paris XIII. Pós doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Membro do Departamento de Psicanálise de Criança e Professora do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenadora da Clínica 0 a 3 do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP.