Paranoia, política e poder

O termo paranoia tem um sentido no nosso dia a dia e outro, mais complexo e preciso, na Psicanálise. Há, na verdade, um modo de funcionamento paranoico, que representa formas de pensar e de agir peculiares e, dependendo do grau, perigosas para o próprio sujeito ou para os que estão ao redor. É sobre isso o texto abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Marion Minerbo.

Por Marion Minerbo*

Você conhece alguém assim?

Você já deve ter ouvido os termos “noia” e “noiado”, que vêm da palavra paranoia. O sentido que se atribui a eles vai da referência bem-humorada às nossas pequenas loucuras cotidianas (“minhas noias”), até a perda de contato com a realidade produzida pelo uso de drogas (“fulano está noiado”). A paranoia, contudo, tem um sentido preciso para a psicanálise. Embora esteja latente e possa ser ocasionalmente “ativada” em todos nós, é francamente patológica quando se torna uma forma predominante de sentir, pensar e agir.

Quando alguém (homem ou mulher) está funcionando no “modo” paranoico – mas também pode ser um grupo, por exemplo, um partido político – sente que é dono da verdade, bom, justo e perfeito. Pode ser cruel porque não sente empatia pelo outro, que é percebido como inferior, ridículo, fraco e desprezível. É preconceituoso e vingativo: pode perseguir, humilhar e agredir, justificando seus atos com o argumento de que o outro “merece” este tratamento. Não sente culpa.

Para o paranoico, o mundo é bom ou mau, certo ou errado, branco ou preto, porque não tem o “chip” necessário para processar situações emocionalmente complexas do tipo e/e, em vez de ou/ou. Espera e exige que todos concordem com ele, e que provem sua lealdade renunciando às suas próprias necessidades e desejos. Ofende-se com facilidade quando não se sente tratado com o devido respeito. Não tolera críticas. Quem tem uma opinião diferente está contra ele. Defende suas próprias ideias com fanatismo. Quem não se submete representa uma ameaça à sobrevivência de seus projetos e de sua identidade, o que gera ódio e violência.

As pessoas que convivem com o paranoico sentem medo e tendem a se submeter ao seu controle tirânico, mesmo quando a violência é velada. Sofrem porque seus desejos são sistematicamente desqualificados e raramente atendidos. Sentem-se sufocadas e sem espaço para ser e para existir. Ele pode se tornar perigoso porque sofre de uma “doença do poder”: do seu ponto de vista, pode e deve impor sua verdade sobre os outros, e está disposto a absolutamente tudo para conseguir isso. Você conhece alguém assim?

*Marion Minerbo é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

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