Robôs no tratamento do autismo…será?

O autismo é um tema que tem aparecido com frequência na mídia e também aqui no Blog. No dia 13/10, publicamos entrevista com a psicanalista e psiquiatra Vera Regina Fonseca para falar sobre autismo em adultos.
O post de hoje se contrapõe à matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo (04/10/2014), sobre a utilização de robôs no tratamento de indivíduos com algum TEA (transtorno do espectro do autismo). A reflexão foi feita pela psicanalista e membro da SBPSP, Maria Thereza França.
A discussão é ampla e segue aberta a todos que quiserem participar.

***

Por Maria Thereza França

Sobre a matéria publicada recentemente no jornal O Estado de S. Paulo (04/10/2014) – Autista interage com robô que auxilia tratamento – faço as seguintes considerações:

Diz a matéria:

“O que parece ser um brinquedo pode ajudar a melhorar a interação das pessoas com autismo e, assim dar mais qualidade de vida a elas.”

“Quando o robô começou o gingado de capoeira, um dos pacientes levantou e imitou o movimento.”

Do experimento com o robô de tecnologia francesa participaram quatro crianças autistas atendidas por uma ONG. Segundo a mesma notícia, a Organização Mundial de Saúde divulga que há mais de 2 milhões de autistas no Brasil e 70 milhões no mundo.

Com os atuais conhecimentos, não podemos mais falar em “autismo” e sim “autismos”, pois é amplo o espectro a ser estudado.

A partir da descrição de Kanner em 1943, do Autismo Infantil Precoce, muitos estudos trouxeram importantes contribuições para o entendimento do que se passa com as crianças com autismo, entre elas as contribuições advindas da Psicanálise.

Os distúrbios que resultam em prejuízos importantes para o desenvolvimento como um todo, mas especialmente para a linguagem e as relações afetivas da criança, têm causalidade múltipla.

A Psicanálise não descarta a possibilidade de que existam fatores orgânicos ou mesmo genéticos, além das questões emocionais. Em conjunto com outras áreas do conhecimento científico, tem desenvolvido recursos para ajudar as crianças com autismo a saírem do universo em que se encontram encerradas, no qual o contato afetivo não existe, ou é tênue.

Necessitamos utilizar ferramentas próprias para que essas crianças possam vir a se interessar pelo humano e abandonar suas relações desvitalizadas, repetitivas e controladas (robotizadas).

A Psicanálise é construída sobre a premissa de que há uma força que move o ser humano, que o movimenta e o diferencia de qualquer outro animal e que as necessidades humanas vão além das biológicas e físicas compartilhadas com todos os animais. A linguagem, a capacidade de pensar, desejar, simbolizar, nascem com as funções corporais, mas a elas transcendem.

É importante que se possa compreender as produções das crianças com autismo, perceber que naquela criança existe um traço, potencialidades, um vestígio de sujeito que precisa desabrochar como ser humano.

É fundamental recriar as condições que possam favorecer o estabelecimento e/ou fortalecimento dos vínculos afetivos e, como consequência, o desenvolvimento das funções mentais, consolidando o vínculo com o humano, que se encontra pouco desenvolvido, em detrimento do contato com objetos concretos, que fornecem estímulos sensoriais, aos quais estas crianças se mostram fortemente aderidas.

Assim, vemos que esse experimento só se justifica no caso de se desenvolver inserido dentro de uma relação afetiva, com outro ser humano, para que o sentido do interagir, “brincar” com um robô (arremedo de gente) possa se ampliar e fortalecer o desenvolvimento de um psiquismo colorido pelas trocas afetivas.

A imitação pode ser um passo para as identificações humanas, porém, pode também cristalizar a adesão a padrões desvitalizados, tendência defensiva tão observada nas crianças com autismo.

As crianças, de um modo geral, hoje, estão perdendo a capacidade de brincar, ou melhor, a brincadeira tende a ocorrer como descargas físicas excitadas, agitação, chegando frequentemente à hiperatividade, o que representa a adesão ao movimento. Do mesmo modo, o uso de iPads como babás eletrônicas, ou a adesividade aos jogos eletrônicos, substitutos precários do contato humano, é cada vez mais estimulado.

Vale registrar que nem a atividade física, nem as mídias e jogos eletrônicos representam em si algo pernicioso, pelo contrário! A atividade física e lazer são saudáveis e estarmos conectados nos dá condições de inserção ao mundo atual. O problema diz respeito ao uso dos mesmos como condutas aditivas, sem que se tenha o entendimento da função a que se prestam: uma tentativa – ineficaz – de preenchimento interno por meio de sensações externas.

Como diz o psiquiatra Jairo Bauer (“As novas dependências”, O Estado de S. Paulo, p. A34, 24/08/2014):

“trocar interações sociais, interesse na escola e no trabalho e opções variadas de lazer pela busca ininterrupta de tempo para se exercitar ou jogar mostra que há uma dificuldade de controle, e, pior, quanto mais se faz, mais se sente que falta algo que ainda deve ser feito.”

E o que faltaria afinal?
Falta o investimento no fortalecimento de um mundo interno, de uma mente que seja capaz de lidar com as questões humanas do dia a dia, modular nossos sentimentos, ajudando a conviver com as agruras da vida e que seja fonte de verdadeira satisfação.

Será que nós seres humanos estamos dispostos a correr o risco de oferecer às nossas crianças já tão prejudicadas modelos robotizados?

*Maria Thereza de Barros França é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

2 comentários

  1. Muito interessantes os artigos e em uma linguagem para os psicanalistas e também os que não tem essa formação.
    Sugiro maior divulgação dos artigos.
    Parabéns aos estudiosos que compartilham de seu conhecimento.

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