Mundo interno e Internet

É inegável que o avanço da tecnologia e o advento da internet, cada vez mais presente em nossas vidas, alteraram de forma significativa a maneira como nos relacionamos não apenas com os outros, mas com nós mesmos. Como, afinal, a realidade virtual dialoga com o nosso mundo interno?
Esse é o debate proposto pela psicanalista Marielle Kellermann Barbosa, no artigo abaixo.
Mundo interno e Internet

*Por Marielle Kellermann Barbosa

A psicanálise, como campo de pensamento, tem muito a dizer a respeito da maneira com que as pessoas estão se relacionando com a internet, com as redes sociais, e como estão compartilhando informações online, seja por texto, fotos e comentários.

No prefácio do livro “Psychoanalysis in the technoculture Era”, Peter Fonagy se pergunta:

“A explosão da tecnologia da informação nos últimos 25 anos mudou a condição humana de maneira diferente se comparada com outras épocas? Se sim, de que maneira essas mudanças interagem com o que é imutável na condição humana?”

Essa é a pergunta que balizará infindáveis linhas de questionamentos, seja em relação às modificações que este “admirável mundo novo” operam no mundo interno, seja nas mudanças técnicas que a tecnologia da informação proporciona no setting analítico, como é o caso de análises feitas via algum dispositivo eletrônico.

Um aspecto interessante da Internet é que ela apela para nosso mundo interno de forma direta e quase sem intermediários. A pergunta que aparece na caixa de texto do Facebook é: “No que você está pensando?”

Pela sua própria configuração, a realidade virtual dialoga com o nosso mundo interno acenando com a possibilidade de um “lugar” de trocas onde há uma liberdade quase total, uma espécie de anonimato, e sujeitos desencarnados, isso é, sem corpos.

Sendo a Internet esse “lugar” que parece fazer limite entre mundo interno e externo, torna-se um ambiente privilegiado, um palco onde dramas internos podem ser atuados, em enredos dos mais variados.

A Internet tem sido pensada por alguns teóricos como um possível espaço transicional, no qual se pode brincar com diferentes versões de si mesmo (Glen Gabbard, 2014), e apontada por outros como um espaço potencialmente perigoso e sedutor, no qual adolescentes, por exemplo, podem atuar defesas triunfantes ao invés de elaborarem as transformações físicas pelas quais inevitavelmente, na realidade concreta, estão passando. (Alessandra Lemma e Vincenzo Bonaminio, 2014).

Para quem se interessar, tratei deste mesmo tema no artigo “Viver conectado, subjetividade no mundo contemporâneo”, publicado na revista IDE – Psicanálise e Cultura, acessível pelo link: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/ide/v35n55/v35n55a08.pdf

*Marielle Kellermann Barbosa é membro filiado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), estuda a interface entre psicanálise e tecnologia, mora atualmente em Barcelona onde faz sua formação na “Societat Espanyola de Psicoanálisi”.

2 comentários

  1. ,A ausência do outro que permitiria relacionamento vivo, não favorece nem a criação do objeto transicional nem identificações projetivas que funcionariam como comunicações. Portanto, a presença do outro ainda é fundamental para a constituição da personalidade.

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