Mês: setembro 2014

Freud explica?

A expressão “Freud explica” tornou-se popular entre as pessoas. Mas será mesmo que Freud quis explicar? É nessa dimensão que opera a Psicanálise? Veja abaixo a interessante reflexão da psicanalista e membro da SBPSP Luciana Saddi, sobre o tema.

*Por Luciana Saddi

Sobre um dito bastante usado entre nós: Freud explica.

Quando um ato falho surge ou quando cometemos um lapso de linguagem é comum que alguém nos diga a frase: Freud explica. Mas o que essa frase quer dizer? Freud quis mesmo explicar?

Nós, psicanalistas, somos mais humildes do que o senso comum imagina que somos, pois nossa pretensão não é jamais explicar. Podemos apenas afirmar que Freud interpreta. Existe diferença entre explicar e interpretar.

A interpretação está na base de funcionamento de todas as psicoterapias de base analítica. Indica que há um trabalho pelo surgimento de sentido para as vivências do paciente. Algumas vezes o sentido parece se ocultar num segredo, que desvendado faz o sujeito avançar no conhecimento sobre si. Outras vezes, interpretar significa favorecer a ligação entre pontos aparentemente desconexos, possibilitando a emergência de novos sentidos e novas percepções.

Interpretar também pode ser entendido como contar, narrar e expor. São referências para o mundo da ficção literária e do teatro, referências que lidam com dar vida aos personagens, exibir certas questões ou mesmo contar histórias que não devem ser esquecidas.

Ao analista resta levar em consideração o que emerge. Trata-se mais de penetrar e de identificar as entranhas que dão suporte às visões que temos de homem e mundo e menos, muito menos, de procurar explicações sobre como se formam tais pensamentos e afetos.

Interpretar significa promover sentido e saber singular. Tomar o discurso do paciente de tal forma que o faz revelar uma verdade intrínseca e, ao mesmo tempo, deixar ao encargo do paciente a elaboração desse momento. Pois cada descoberta leva a quebra da rotina psíquica, cria uma pequena crise e leva ao aumento de patrimônio sobre nós mesmos.

Assim, da próxima vez que alguém lhe disser, Freud explica, replique dizendo, não, de jeito nenhum, Freud interpreta!

*Luciana Saddi é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

A síndrome da mãe morta

Um dos conceitos centrais na obra de André Green é o de “mãe morta”. O psicanalista francês criou esse termo para falar de como a falta de interesse da figura materna em relação à criança se traduz, mais tarde, na sensação de perda de sentido, apatia e identificação inconsciente com o luto. Sobre o tema, confira o artigo da psicanalista Talya Candi, membro da SBPSP.

A síndrome da mãe morta

*Por Talya S. Candi

Com a noção de “mãe morta”, o psicanalista francês André Green coloca em evidência o vazio que subjaz à vida mental de todo ser humano. Expliquemos: para sermos capazes de nos apropriar dos afetos, sensações e fantasias que formam o tecido psíquico que chamamos de vida mental, precisamos de um suporte bem constituído pois, tal como um quadro que pode ser pintado somente se tiver uma tela branca segura, as percepções, fantasias e afetos que organizam nossos desejos e idéias necessitam de um “pano de fundo”, um continente vazio que permita que o desenho de fantasias e afetos tome forma e figura.

Essa descoberta foi feita por André Green com base em um trabalho psicanalítico com um tipo muito particular de pacientes: pessoas que se submetem ao tratamento proposto pelo terapeuta, conversam, associam, escutam as intervenções do analista, mas após longos anos de análise não apresentam sinais de melhora em sua vida afetiva. O autor tece uma hipótese sobre essa dificuldade em relação ao trabalho analítico: para ele, com certo tipo de pacientes a técnica analítica interpretativa reproduz o que chama de síndrome da mãe morta.

Forjando a expressão depressão de transferência para se referir a um sentimento de falta de vitalidade que impregna a relação entre paciente e analista, Green descreve um profundo sentimento de desesperança que faz com que todo o trabalho do terapeuta escorregue em um enorme vazio que suga todo o trabalho interpretativo.

A mãe morta (emocionalmente nesse estado, não necessariamente falecida de modo concreto) é definida como um “complexo transferencial” que reconstrói hipoteticamente a relação da criança pequena, ainda muito dependente do olhar materno, mas bruscamente “desinvestida” devido ao afastamento afetivo por parte da figura materna. Esse acontecimento incompreensível para a criança transforma brutalmente o objeto vivo, fonte da vitalidade, em figura distante, átona, quase inanimada, e põe fim a momentos felizes de sua infância.

Sugestões de leitura sobre o assunto:
1. A mãe morta, de André Green
2. Analisando formas de vitalidade e desvitalização, de Thomas Ogden

*Talya S. Candi é psicanalista e membro da SBPSP. É autora do livro “O aparelho psíquico de André Green”, publicado pela editora Escuta em 2010 .

Mundo interno e Internet

É inegável que o avanço da tecnologia e o advento da internet, cada vez mais presente em nossas vidas, alteraram de forma significativa a maneira como nos relacionamos não apenas com os outros, mas com nós mesmos. Como, afinal, a realidade virtual dialoga com o nosso mundo interno?
Esse é o debate proposto pela psicanalista Marielle Kellermann Barbosa, no artigo abaixo.
Mundo interno e Internet

*Por Marielle Kellermann Barbosa

A psicanálise, como campo de pensamento, tem muito a dizer a respeito da maneira com que as pessoas estão se relacionando com a internet, com as redes sociais, e como estão compartilhando informações online, seja por texto, fotos e comentários.

No prefácio do livro “Psychoanalysis in the technoculture Era”, Peter Fonagy se pergunta:

“A explosão da tecnologia da informação nos últimos 25 anos mudou a condição humana de maneira diferente se comparada com outras épocas? Se sim, de que maneira essas mudanças interagem com o que é imutável na condição humana?”

Essa é a pergunta que balizará infindáveis linhas de questionamentos, seja em relação às modificações que este “admirável mundo novo” operam no mundo interno, seja nas mudanças técnicas que a tecnologia da informação proporciona no setting analítico, como é o caso de análises feitas via algum dispositivo eletrônico.

Um aspecto interessante da Internet é que ela apela para nosso mundo interno de forma direta e quase sem intermediários. A pergunta que aparece na caixa de texto do Facebook é: “No que você está pensando?”

Pela sua própria configuração, a realidade virtual dialoga com o nosso mundo interno acenando com a possibilidade de um “lugar” de trocas onde há uma liberdade quase total, uma espécie de anonimato, e sujeitos desencarnados, isso é, sem corpos.

Sendo a Internet esse “lugar” que parece fazer limite entre mundo interno e externo, torna-se um ambiente privilegiado, um palco onde dramas internos podem ser atuados, em enredos dos mais variados.

A Internet tem sido pensada por alguns teóricos como um possível espaço transicional, no qual se pode brincar com diferentes versões de si mesmo (Glen Gabbard, 2014), e apontada por outros como um espaço potencialmente perigoso e sedutor, no qual adolescentes, por exemplo, podem atuar defesas triunfantes ao invés de elaborarem as transformações físicas pelas quais inevitavelmente, na realidade concreta, estão passando. (Alessandra Lemma e Vincenzo Bonaminio, 2014).

Para quem se interessar, tratei deste mesmo tema no artigo “Viver conectado, subjetividade no mundo contemporâneo”, publicado na revista IDE – Psicanálise e Cultura, acessível pelo link: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/ide/v35n55/v35n55a08.pdf

*Marielle Kellermann Barbosa é membro filiado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), estuda a interface entre psicanálise e tecnologia, mora atualmente em Barcelona onde faz sua formação na “Societat Espanyola de Psicoanálisi”.

Schumann – sinfonia nº 2

Por Leopold Nosek

As biografias de Robert Schumann costumam oferecer um panorama romântico em que aspectos da subjetividade do compositor se mesclam com características de sua produção. Nascido em 1810, na Saxônia, temos em Schumann um gênio problemático que cresceu num lar altamente disruptivo. O pai, livreiro e romancista, tradutor de Walter Scott e Byron, tinha uma personalidade conturbada; a mãe é descrita como uma mulher violentamente apaixonada. Seus estudos iniciais de música se direcionaram para o piano. O interesse por literatura, latim e grego se desenvolveu cedo também, e datam de precoce juventude seus primeiros escritos. Aos 16 anos perde o pai, no mesmo mês em que sua irmã se suicida. Para fazer jus à herança, conforme as estipulações paternas, é obrigado a se matricular em direito na Universidade de Lepzig.

Por essa época, estuda piano com Johann Friedrich Wieck, cuja filha Clara, então com 9 anos, viria a ser sua esposa. Em 1830, aos 20 anos, abandona o direito. Já sabe que nunca se tornará um pianista virtuosístico. Uma das explicações seriam os problemas com um dedo da mão direita, consequência talvez de envenenamento por mercúrio, quando do tratamento da sífilis que adquiriu precocemente. Sífilis que pode estar no centro de seus futuros padecimentos psíquicos.

A década de 1830 será marcada por fortes desavenças com Wieck, motivadas tanto por questões musicais como pela ferrenha oposição deste ao relacionamento de Schumann com Clara. Desenvolve na época um trabalho intenso como crítico na Neue Zeitschrift fur Music, periódico do qual foi cofundador, em 1834, e no qual divulga suas ideias acerca da música. Nessa década, escreve a maioria das obras que o estabelecem como autor obrigatório na literatura para piano, tais como os Estudos sinfônicos, asCenas infantis e a Kreisleriana.

Em 1841 Robert se casa com Clara — ela, sim, aclamada como virtuose do piano —, depois de um tempestuoso processo legal contra seu professor e pai de Clara. Tomado de uma criatividade febril, compõe no ano dessa disputa cerca de 140 canções que são obras-primas do gênero. No ano seguinte, em estado de celebração, começa a escrever obras sinfônicas. São dessa época as Sinfonias no. 1 e no. 4, além da Fantasia em lá menor para orquestra e piano. Em seguida, dedica-se à música de câmara. Em 1844 o casal se transfere para Dresden, onde Robert terá uma de suas crises mais severas e criará, em poucos meses, a Sinfonia no. 2 em dó maior.

Dez anos depois, no inverno de 1854, a insanidade de Schumann se manifestará dramaticamente, culminando um longo histórico de crises de hipomania, melancolia e alucinações. Ouve vozes angélicas que logo se tornam ruídos infernais de tigres e hienas. Tenta o suicídio no Reno, e, resgatado, passa dois anos em isolamento num sanatório, proibido de ver Clara até uns poucos dias antes de morrer.

Temos aí o habitual terreno romântico onde se colore uma personalidade artística com altas doses de subjetividade e se define o gênio que surgirá da aguda introspecção, do sofrimento, do desespero. Faz parte desse hábito retratar o artista como o herói solitário cuja insatisfação se contrapõe a um mundo hostil.

Alguns biógrafos de Schumann dirão que, nesse momento, todo o seu ser respira música e que esta se mescla entranhadamente com fantasias, sonhos e delírios. Lida com suas ideias musicais de forma militante, criando, por exemplo, a “Liga de Davi”, grupo imaginário que se dispunha a combater os filisteus da música da época. Em mais um canônico expediente romântico, essas figuras se movem sob a tutela de duas personas de Schumann: o extrovertido e impetuoso Florestan e o pálido e tímido Eusebius. São personagens que também se reapresentam musicalmente, nomeando duas peças do Carnaval – Pequenas cenas sobre quatro notas. A vida é construída e encontra expressão programática na obra musical, que adquire então uma figuração peculiar.

Assim, na Sinfonia no. 2, de 1845-46, é comum que se identifique uma luta titânica contra a insanidade nos dois primeiros movimentos, passando a um profundo estado melancólico no terceiro movimento e terminando com um quarto movimento que celebra a vitória sobre o sofrimento. Thomas Mann não resistiu a esse apelo quando, no Dr. Fausto, associou o adoecimento do compositor Adrian Leverkühn — o protagonista dessa espécie de biografia musical fictícia — à genialidade de sua produção. Criara-se o costume de ver a paralisia geral progressiva, loucura sifilítica muito comum até o advento da penincilina, em 1942, como um evento dionisíaco, próprio a engendrar a originalidade. Mann se baseou nos diários de Nietzsche, que, como se sabe, viveu seus últimos anos acometido pelos tormentos dessa manifestação da doença. À parte incitar suicídios, o Treponema pallidumda sífilis e o bacilo de Koch da tuberculose sempre agiram poderosamente sobre a imaginação romântica. Esses organismos invisíveis seriam os responsáveis por trazer Mefistófeles, profeta da criação e da consciência, para o centro da cena.

Mas acompanhemos agora T. S. Eliot em seu ensaio “A música da poesia”, que integra o volume De poesia e poetas: “[…] a linguagem do poeta precisa estar de tal modo relacionada à linguagem de sua época que o ouvinte ou leitor possa dizer: assim é que eu falaria se pudesse falar em verso”. Adiante, reafirma: “A música da poesia deve ser, portanto, a música latente na fala comum de sua época”. Por esse caminho, podemos pensar que a música deve conter a poesia do presente, ser um modo de dar expressividade ao seu tempo.

Não pretenderia jamais fazer uma impossível paráfrase da Sinfonia no. 2 de Schumann neste texto que quer apenas fazer alguma companhia enquanto se espera a música. Mas é possível aproveitar este breve momento para construir um sonho — não será o que todos nós fazemos quando nos deixamos impregnar de música (em vez de nos entregarmos à preguiça de um simplório devaneio embalado em sonoridades)? Tampouco pretenderia fazer uma dissecção anatômica, escudado no que Eliot afirma com baixos teores líricos: “A anatomia não pode nos ensinar o que é preciso para uma galinha botar ovos”.

Ouvimos os acordes iniciais da sinfonia, os metais ecoam, começa o primeiro movimento. A lenta evolução nos faz escutar o espectro que assombrava Schumann, Brahms e tantos outros: Beethoven! Agora, entretanto, estamos em outro registro de conflito e representação. Continua a existir como que um apelo à grandeza do humano, mas desta vez a crença não se faz acompanhar da força de uma ideia que acaba de vir ao mundo. A decepção, por outro lado, não será acompanhada da indignação que fez Beethoven rasgar a dedicatória da Eroica a Napoleão Bonaparte, que abandonara a revolução e se coroara imperador. Agora quem se coroará será Luís Bonaparte, seu sobrinho. Serão tempos de um outro 18 Brumário, não mais a tragédia que arrebata, mas a farsa que despedaça a alma. Conduzidas pelas cordas, loucas e sombrias sonoridades chegam rapidamente e se sobrepõem aos metais.

A subjetividade de Schumann se corresponde de alguma forma com o drama de uma época. Uma enorme aventura fora anunciada: a secularização do mundo — Deus exilado, ou quando muito habitando o foro íntimo, a Razão seguindo firme em suas conquistas, a Ciência como nova avalizadora da verdade, a História caminhando para sua realização triunfal. A esperança, reapresentada, recuperaria o tempo perdido e as promessas acumuladas se cumpririam. Rasgada a dedicatória a Bonaparte, contudo, Beethoven se dirige a territórios introspectivos que, cada vez mais remotos, no século seguinte seriam objeto da maior de todas as aventuras: Ulisses fará seu périplo no espaço de horas, nos domínios do mundo interno.

Outro é o tempo de Schumann. Com a aproximação de Luís Bonaparte, o artista se recolhe, se retrai diante de promessas heróicas que não se cumprirão. Seu isolamento terá como corolorário um novo sentimento, uma nostalgia de tempos que supostamente existiram — nós nos tornamos agudamente melancólicos. Uma longa série de projetos se reapresenta, e cada um deles é sucessivamente “esperado”, “ansiado” no passado. Cada época faz isto: cria novos estados de alma. Hoje somos contemplados com o que poderíamos chamar de estado “antideprimido”. Quem o conheceu no passado?

O segundo movimento, ao contrário do andamento lento habitual, nos traz um scherzo em que Schumann, como observam os comentadores, evoca Bach, retomando os estudos que escrevera antes desta sinfonia e que teriam tido um papel relevante nos meses de 1845, quando se recuperava da grande crise. Esse movimento, que tem aspectos virtuosísticos importantes, se encerra em triunfo.

Chegamos ao adágio em dó menor, expressão talvez da essência do romantismo. Em clima de beleza sublime, o dilaceramento da alma e a melancolia atingem uma representação raramente alcançada. Como as gerações que nos precederam, somos profundamente afetados por ele. Soa como se tivéssemos sido construídos sobre esses alicerces e fundações, que não são o passado: são a raiz do presente, que se assenta sobre elas. Continuamos a esperar, e nossas decepções atingem outras intensidades. Depois da criação e da revelação, ainda e sempre nos faltará a redenção. Somos feitos desse material, do sonho religioso que constrói nosso mundo “quase” desencantado, e assim mergulhamos no universo desse comovente terceiro movimento. Somos nostálgicos do mundo que nós mesmos nos prometemos, no qual encontraríamos o Alle Menschen werden Brüder anunciado pelaNona de Beethoven, um mundo de fraternidade. Somos nostálgicos de todos os amores que encontram sua plena realização.

O quarto movimento, que retoma trechos do primeiro e do terceiro, geralmente é comentado como expressão da recuperação mental de Schumann. Talvez seja sintomático de que a esperança e o apelo do triunfo não foram abandonados. É a recordação do que ainda não se realizou.
Somos reféns da invenção grandiosa que foi a ideia de redenção e também da decepção inescapável que esta engendra. A Sinfonia no. 2 nos lê hoje, nos ajuda a dar forma ao presente — e essa atribuição de forma se chama saúde. Precisamos dessa forma porque ela traz em si a possibilidade de que o pensamento se mova. Essa é a forma dos sonhos, que são a matéria de que é feita a arte. Eliot nos diz: “O poeta está às voltas com as fronteiras da consciência, além das quais as palavras definham, embora os significados continuem a existir”. Inevitavelmente, deixaremos esta sala de concerto com a sensação de que demos um passo a mais em nossa humanidade.

*Este artigo foi publicado na Revista da OSESP
** Leopold Nosek é psiquiatra, psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP); ex-presidente da SBPSP e ex-presidente da Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL).

Psicanálise e Educação: construção de conhecimento, subjetividade e performance

Qual as interfaces entre Psicanálise e Educação? Em que pontos elas se encontram? Como permitir que a realidade de fantasias da criança não se perca diante da necessidade de aquisição de conhecimento científico? A lógica racional é incompatível com o universo da imaginação infantil?

De perspectivas diferentes, a Educação e a Psicanálise se ocupam do desenvolvimento humano e o diálogo entre as duas áreas tem se mostrado cada vez mais profícuo. A construção do conhecimento e a constituição subjetiva são processos que se comunicam, ao longo do crescimento. Daí a importância de refletirmos sobre essa interface.

Essas e outras questões serão debatidas na 4ª Jornada de Psicanálise e Educação, no dia de 27 de setembro, na sede da SBPSP.

Para quem quiser saber mais, leia abaixo a ótima conversa que tivemos com as psicanalistas e membros da SBPSP, Heloisa Ditolvo, Marina Bilenky e Silvia Deroualle, coordenadoras da Jornada.

1 – Por que uma jornada que reúne os temas psicanálise e educação?

A psicanálise e a educação são áreas de estudo que abordam questões que possuem intersecções. Ambas se interessam pelo desenvolvimento humano, partem de diferentes  perspectivas, porém dialogam muito bem, por entenderem a necessidade de se cuidar e de se criar condições favoráveis para que este desenvolvimento aconteça.

2 – Quais as principais interfaces entre ambas?

A escola está ocupada com a construção do conhecimento, formação da cidadania e da ética, de um ser social e criativo. A escola funciona como mecanismo de transmissão da cultura.

A psicanálise vai criar um campo de busca de conhecimento do sujeito, de suas demandas pessoais. Para isto, precisa pensar o indivíduo dentro de sua realidade, interna, e da realidade social, externa, para que possa instrumentalizar esse indivíduo portador dessa cultura, a ser reflexivo, crítico, pleno de suas potências, criativo.

Partindo de direções opostas, ambas procuram entender e trabalhar com o ser humano que vive dentro de uma cultura que lhe é própria.

3 – Do ponto de vista da psicanálise, como se dá a construção do conhecimento?

Diante de uma novidade, o sujeito passa por um processo de desestabilização. A partir desse desequilíbrio, ele precisará elaborar a nova informação, integrá-la ao conhecimento que já havia adquirido, atingindo uma nova estabilização, agora transformada e enriquecida.
Para que esse processo ocorra, o sujeito, num primeiro momento, precisa suportar manter-se num estado de não saber para, em seguida, encontrar um sentido e um lugar para este novo conteúdo, que passa a fazer parte do conjunto de conhecimentos que ele possui.
As informações recebidas precisam vir acompanhadas de significado para quem as recebe, e a partir daí se vinculam afetivamente ao sujeito. Esse patrimônio vai sendo constituído a partir de permanentes rupturas dos antigos saberes.

4 – Como ensinar uma criança a pensar, do ponto de vista da lógica racional, sem que ela perca aquilo que é da ordem da imaginação e do sonho?

Até mais ou menos 7 anos, a criança vive num mundo de fantasias. É a partir de sua imaginação, sonhos, brincadeiras e projetos que ela experimenta o mundo e vai construindo a realidade. O adulto deve aceitar o funcionamento da criança, partir da lógica que existe na fantasia para ensinar a lógica racional. Ao invés de dizer que algo é “besteira” ou errado, tentar compreender qual a lógica que norteou aquela resposta, para então apresentar outras possibilidades.

Por exemplo: uma criança, ao executar sua tarefa de escola em que lhe foi pedido desenhar 3 frutas diferentes na tigela, desenha 7 frutas.  A professora pode garantir o conhecimento aritmético de unidades, e também descobrir junto com seu aluno qual o sentido das outras 4 frutas que ele espontaneamente acrescentou à tarefa pedida. Dessa maneira, pode perceber se há ou não alguma outra lógica na resposta da criança, sem a necessidade de taxar a resposta de errada sem investigação.

5 – É possível conciliar o pensamento infantil com o conhecimento científico?

Quando Isaac Newton descobriu como a refração da luz branca solar incidindo na  atmosfera úmida provoca o arco-íris, não retirou a surpresa e o encanto que nos provoca a visão das cores que se descortinam diante de nossos olhos. Nem tampouco desfez  a fantasia de que o arco-íris ao tocar o chão, indica o local exato de onde se encontra um baú repleto de tesouros.

6 – Como evitar “enquadrar” o pensamento infantil e perder suas melhores qualidades?

Evitando dar  regras que formatem o curso do pensamento e taxar de erradas respostas que não se enquadram ao modelo de forma imediata.

Meltzer, psicanalista, afirma que nossa mente tem a função de gerar metáforas para podermos escrever a poesia e pintar o quadro de um mundo repleto de significados das nossas paixões relacionadas às belezas do mundo.
Essas metáforas são essenciais para o pensamento, são a expressão do desenvolvimento do simbólico, das associações, matéria prima para o aumento da capacidade de elaboração e consequente compreensão do mundo.

7 – Como manter e até incentivar a narrativa infantil e conciliá-la com a necessidade do discurso científico?

Garantindo situações que favoreçam a liberdade de perguntar, de exercer a curiosidade. É essencial sermos sujeitos da nossa experiência. Há que se garantir o projeto, a experimentação, o engano, a dúvida, o erro e a reparação, para podermos nos lançar em outras experiências. Quando somos autorizados a expressar ideias e a refletir, quando sentimos que nosso pensamento tem valor, continuamos formulando novas perguntas e demonstrando interesse em aprender novas formas de pensamento, inclusive o discurso científico.

A arte, o sonho e a fantasia são elementos que enriquecem a concepção do humano, ilumina e dá valiosas contribuições no sentido de suportarmos o impacto do cotidiano da vida. Quando isto está minimamente garantido, o indivíduo tem condições intelectuais e emocionais de lançar-se na aventura do conhecimento científico.

8 – Como conciliar a construção adequada de conhecimento com as necessidades do mundo atual, que exige, de todos, altas performances?

Será que podemos conciliar estas realidades? A exigência de eficiência a toda prova vai na contramão da construção de conhecimento tal como viemos tratando até aqui. A velocidade dos acontecimentos, a demanda por absorver inúmeras e tão variadas informações, objetivo praticamente impossível de ser cumprido, nos coloca num estado de insatisfação crônica que nos leva ao sentimento de estarmos permanentemente devendo ou de sermos insuficientes.

Nossa natureza carece de tempo e espaço para sentirmos, pensarmos, e refletirmos para compreendermos o que se passa dentro e fora de cada um de nós.

Talvez a saída para esse impasse seja uma reflexão profunda a respeito de  qual aspecto deve ser priorizado em cada etapa do processo educacional.

9 – O que dizer do alto índice de medicalização que existe entre as crianças e os jovens atualmente?

A medicalização precisa ser entendida como uma ferramenta auxiliar e não como a solução de todos os problemas e dificuldades que precisam ser enfrentados.

Em recente pesquisa constatou-se que, nos últimos 3 anos, houve um aumento de 775% no uso de Ritalina para crianças  e adolescentes em São Paulo. Precisamos analisar estes números para pensar se estamos nos defrontando com uma atitude de banalização da medicação ou se isso se deve à melhoria nos diagnósticos do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Esta é uma das perguntas que esperamos poder responder durante a Jornada.

Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Marina Kon Bilenky é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) 

Silvia Martinelli Deroualle é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) 

 

Transtorno Obsessivo-compulsivo: rituais, manias e aprisionamento.

Rituais e manias, em alguma medida, fazem parte do nosso dia a dia e o ideal é que sejam formas de nos ajudar com a organização da rotina, das nossas tarefas, ou mesmo no trabalho. Mas pode não ser sempre assim. A partir do momento em que tais comportamentos tornam-se imperativos e controlam a vida do indivíduo, causando sofrimento e prejuízo em sua vida social e emocional, podemos estar diante de um transtorno grave, que requer tratamento. Confira na sequência mais informações sobre transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e sinta-se à vontade para deixar comentários e dúvidas.

Transtorno Obsessivo-compulsivo: rituais, manias e aprisionamento.

O Transtorno Obsessivo Compulsivo, mais conhecido como TOC, é um Transtorno  Mental caracterizado pela presença de ideias estranhas e incontroláveis que atormentam incessantemente o sujeito, e pela constante luta contra esses pensamentos. Há também compulsão a realizar atos indesejáveis, rituais esconjuratórios e um modo de pensar ruminante. Pensamentos mágicos e dúvidas que levam à inibição do pensamento e da ação, também fazem parte do quadro (esses pensamentos dominam as ações da pessoa e impedem que ela se comporte livremente).

Segundo a psicanalista Luciana Saddi, membro da SBPSP, nas primeiras iniciativas de se estudar os transtornos mentais, entre 1894 e 1895, a neurose obsessiva foi isolada por Freud de outros sintomas psiquiátricos. Naquele momento, Freud compreendeu-a como um quadro psiquiátrico autônomo e independente, pertencente à família das psiconeuroses. Na época, os médicos consideravam que era uma degeneração e que o quadro era incurável.

De acordo com ela, atualmente, na Psicanálise, fala-se em uma estrutura mental obsessiva ou em traços obsessivos de personalidade e a formação dos sintomas ocorre quando conflitos irremediáveis, recheados de afetos intensos e simultâneos de amor e ódio surgem e, por algum motivo, não se resolvem. Diante disso, nasce a necessidade de controlar a vida pulsional e desviar a sexualidade e a agressividade para fins aceitáveis. Mas, como é característico das formações sintomáticas, o ‘tiro sai pela culatra’ e a defesa se torna adoecimento. No caso desse transtorno, os mecanismos de defesa mais evidentes são: o deslocamento de afetos para ideias distantes das que originaram o conflito e o isolamento, que quebra as conexões do pensamento, e desliga o sujeito de sua própria história e de seus afetos.

Segundo a psiquiatra e psicanalista Suzana Grunspun, esse é um dos transtornos mais prevalentes na população e considera-se que sua variabilidade clínica e diversidade de sintomas são fatores complicadores de diagnóstico. Isso preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS), pois o TOC é considerado uma doença incapacitante.

Desde a década de 50 a Associação Psiquiátrica Americana publica o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, cujo objetivo é fornecer uma fonte segura e científica para fundamentar a pesquisa e a prática clínica. A psiquiatria preconiza a identificação de sintomas, segundo as normas estabelecidas pelo manual DSM V, para fins de diagnóstico e para o tratamento dos pacientes. A psiquiatria não se dedica tanto, como a psicanálise, à compreensão dos aspectos emocionais que podem estar subjacentes ao quadro estabelecido.

No DSM V, o TOC é descrito pela presença de obsessões, compreendidas como pensamentos repetitivos e persistentes, imagens ou impulsos e/ou compulsões que são comportamentos com rituais repetitivos ou atos mentais, nos quais a pessoa se vê obrigada a fazer em resposta a uma obsessão. O psiquiatra, baseando-se na presença quantificada  de obsessões e/ou compulsões e a partir de critérios estabelecidos, proporá o diagnóstico. Atualmente, existem medicamentos indicados para o tratamento, que devem ser prescritos com rigor e que ajudam no alívio dos sintomas. Isso reduz a carga de sofrimento do indivíduo e propicia uma melhora em sua qualidade de vida.

Mas como a Psicanálise compreende o TOC?

Como se sabe, a noção de inconsciente é fundamental na Psicanálise e, segundo Luciana Saddi, no núcleo desse sofrimento e desse conjunto de sintomas está a imperativa necessidade inconsciente de controlar. Controlar afetos indesejados, ideias que podem surgir de repente causando desordem ao sujeito e impulsos de natureza sexual ou hostil que perturbam a ordem estabelecida. Se juntarmos a necessidade de controle com o pensamento mágico e acrescentarmos, nessa equação, a confusão entre desejo e ação, teremos todos os ingredientes para a estrutura mental obsessiva.

Além do tratamento com medicamentos, também a análise pode contribuir para a melhora dos sintomas. Analista e analisando trabalham no sentido do surgimento de um saber singular sobre o sujeito em análise. Trata-se, assim, de identificar as entranhas que dão suporte aos sintomas, aquilo que está na base dessas defesas. Procurar eventuais explicações sobre como se formam tais pensamentos e afetos que geram os sintomas não é, na Psicanálise, o foco do tratamento. O discurso do paciente revela uma verdade intrínseca a ele e o trabalho de análise oferece uma oportunidade única: o analisando pode ser escutado por alguém que não participa de sua vida familiar e que não deseja lhe impor nenhuma verdade ou saber pronto. O analisando pode falar e se escutar ou se calar. O espaço é livre de obrigações e performances, e a ideia é que, por meio de trocas e experiências que só dizem respeito àquela dupla, seria possível chegar aos núcleos inconscientes que mantém os sintomas ativos.

Em relação à cura, sim, ela pode ser alcançada em muitos casos. Em outros, trabalha-se em busca do abrandamento dos sintomas, para que o sujeito possa seguir com sua vida, sem tantos prejuízos. O importante é que as pessoas busquem ajuda, pois existe sim tratamento, tanto do ponto de vista psiquiátrico como psicanalítico. Se vai haver a supressão total da sintomatologia, ou apenas seu abrandamento, é impossível saber de antemão. O que se sabe é que atualmente as ciências da área da saúde dispõem de recursos que se complementam e que não só podem como devem ser utilizados em conjunto, buscando o alívio do sofrimento e a recuperação da energia de vida que os transtornos mentais subtraem dos indivíduos.

Fontes:

Luciana Saddi – mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Suzana Grunspun – psiquiatra, psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).