Falando sobre autismo…

Autism

O autismo é um transtorno de desenvolvimento que tem sido cada vez mais discutido não apenas no meio acadêmico, mas também na mídia. Atualmente, fala-se em transtornos do espectro do autismo (TEA), que englobam desvios caracterizados por um comprometimento na capacidade da criança de estabelecer contato e de interagir, de responder aos estímulos sociais e na comunicação verbal e não verbal. Devido à diversidade de sintomas encontrados no grupo dos TEA’s, hoje utiliza-se o termo espectro autístico.

A clínica do autismo é complexa e diagnosticar o transtorno é o passo inicial para que o tratamento tenha resultados positivos. Recomenda-se sempre a atuação de uma equipe multiprofissional, que tenha conhecimento sobre o desenvolvimento psíquico infantil. Nesse universo, a Psicanálise tem contribuído na detecção precoce dos sinais autísticos e também no atendimento de bebês e crianças que apresentam problemas de desenvolvimento.

Quem quiser saber mais sobre o que caracteriza o transtorno, quais os sinais comuns, o que fazer quando há suspeita de autismo, tratamentos e melhoras no quadro, entre outras questões, vale ler a entrevista que segue abaixo, realizada pela psicanalista Luciana Saddi com a psiquiatra e psicanalista Elisabeth Lordello Coimbra, especialista no assunto.

1. O que se passa com uma criança com autismo?

Inicialmente a criança tem dificuldade em estabelecer uma ligação afetiva com os pais e com as pessoas à sua volta, geralmente demonstrando interesse pelas coisas, principalmente as que estão em movimento. O primeiro sinal observado costuma ser o fato de que a criança não aprende a falar ou fala pouco e repete sons ou palavras isoladas. Pode apresentar agitação e movimentos repetitivos de parte do corpo, ou do corpo inteiro, voltando-se para estes estímulos e retirando-se do convívio e apresentando prejuízo no seu desenvolvimento.

2. É possível traçar uma linha comum quando se fala em um quadro de amplo espectro? Há graus diferentes de acometimento?

A linha comum se baseia nos sinais descritos acima: desenvolvimento prejudicado pela falta de contato afetivo, dificuldade ou atraso na fala e autoestimulação. Sim, há graus diferentes de acometimento, com os sinais se apresentando de forma tênue, até graus muito acentuados, com maior prejuízo ao desenvolvimento da criança. Além disso, os sinais descritos podem se acompanhar de outras manifestações, como por exemplo, não olhar nos olhos, não brincar, ter sensibilidade a ruídos e aparentar não sentir variações de temperatura.

3. Quais os sinais que nos levam a suspeitar que uma criança sofra de autismo?

Os sinais são estes já descritos: falta de contato afetivo, prejuízo no desenvolvimento da fala e os movimentos corporais. O importante é que o diagnóstico seja feito o quanto antes. Ele pode ser feito mesmo em bebês que interagem pouco com os pais, por mais que eles se empenhem para promover o contato afetivo.

4. Quais medidas podem ser adotadas diante de uma suspeita dessas?

A família, ao notar ou ser alertada para uma suspeita de autismo, deve conversar com o pediatra e os professores, para verificar se a suspeita se confirma. Em caso positivo, como a questão central do autismo tem a ver com o problema das ligações afetivas, o profissional a ser procurado deve ser da área emocional.

5. De acordo com a visão médica oficial o autismo não tem cura, mas tem tratamento? E qual o tratamento mais adequado?

A medicina se dedica ao estudo das doenças e de acordo com o ponto de vista médico, o entendimento acerca do diagnóstico fica mais restrito e o prognóstico mais limitado. Nós, psicanalistas, não ignoramos o diagnóstico, mas trabalhamos com a saúde, com a possibilidade individual de cada criança em retomar seu desenvolvimento. A oportunidade que este blog nos dá é importantíssima, pois podemos apresentar informações que não circularam na mídia televisiva. É necessário que os pais sejam informados que há esperança com o tratamento psicanalítico, frente à perspectiva da possibilidade de retomada do processo do desenvolvimento de seus filhos, que está prejudicado.

6. Temos como avaliar qual criança responderá melhor ao tratamento? Quais são os indícios de bom prognóstico?

Quanto antes for feito o diagnóstico e iniciado o atendimento melhores serão as chances de bons resultados. Evidentemente a criança cujo desenvolvimento não estiver por demais prejudicado, responderá melhor. O atendimento psicanalítico precoce poderá se contrapor às forças a favor da manutenção dos mecanismos repetitivos corporais, fato que estimula o uso do corpo e dificulta o desenvolvimento da vida mental da criança. Fundamental para a boa evolução do tratamento é contar com a colaboração dos pais.

7. E em relação aos pais, qual a atenção que se dá aos pais de uma criança autista?

Elizabeth: A atenção aos pais é um dos aspectos importantes, pois geralmente esses pais chegam muito enfraquecidos em suas funções paternas e também desiludidos, após peregrinarem por consultórios de vários especialistas. É importante construir junto com eles o entendimento do que se passa com seu filho e ajudá-los a desenvolver a continência emocional que a criança e eles tanto necessitam, para lidarem melhor com as dificuldades que enfrentam.

8. Quais as dificuldades com a escolarização? É recomendada a inclusão?

As crianças autistas apresentam, além da dificuldade de relacionamento afetivo, um importante prejuízo no seu desenvolvimento simbólico, ou seja, têm um funcionamento muito preso ao concreto, e necessitam ajuda para construírem um vínculo com o aprendizado. A inclusão é recomendada devido à qualidade da atenção e disponibilidade afetiva que elas demandam.

 

*Elisabeth Lordello Coimbra é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA e Coordenadora da Diretoria de Atendimento à Comunidade da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

*Luciana Saddi é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

 

8 comentários

  1. Sou Psicopedagoga e tenho inúmeros atendimentos nesse âmbito. Gostaria de mais detalhes sobre a indicação dessa Inclusão, as vezes, tão difícil quando não se tem uma mediadora na escola. Sendo, a lei tão ambígua nesse ponto. Muito obrigada!!!!

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    1. Cara Kellen, bom dia,
      Sobre sua questão, nós temos que considerar dois planos de dificuldades: a discriminação sobre o nível do funcionamento autístico de uma criança e como apresentar este funcionamento em linguagem acessível para os profissionais da área da Educação.
      Vou começar pelo primeiro nível de questão. A atual terminologia Transtornos do Espectro do Autismo tem nos mostrado que as possibilidades de recolhimento são variadas, fato que promoverá desenvolvimentos bem diferentes em cada criança. Posso lhe dizer que a grande maioria dessas crianças são muito inteligentes, com recursos para serem alfabetizadas, mas chama nossa atenção as características desse aprendizado escolar. Na grande maioria dos casos o conhecimento também fica autisticamente recolhido, mas ele existe. Como acessá-lo? Não por vias formais de avaliação de aquisição do conhecimento pedagógico. Muitas vezes o funcionamento é pautado pela via da concretude com viagens pela via do simbólico, ou pelas vias dos assuntos repetitivos e até mecânicos que estas crianças manifestam. Há um transito a ser descoberto, não muito fácil, mas bem interessante.
      Sugiro que vc venha se inscrever no II Fórum Interdisciplinar sobre Desenvolvimento Humano- Transtornos do Espectro do Autismo de 27 a 29 de novembro/2014, na SBPSP. Esse tema será bem discutido.
      Sobre a falta dos profissionais mediadores nas escolas penso ser uma questão que ainda precisa ser divulgado e melhor estudado. Temos tido boas experiências com trabalhos na área da inclusão.

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  2. Sempre interessante temas ligados al Autismo, por ajudarem a desvendar esse universo. No entanto, o que me chama a atenção é essa abordagem, sempre direcionada ao publico infantil, como se o Autismo não acompanhasse o individuo para o resto da vida. Quanto à psicanálise, é uma linha importante, havendo que se notar, no entanto, que muitos profissionais ainda se prendem à formula “me conta, que eu te explico”. Ou seja, parte do principio mais problemático de expressão para o autista…

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    1. Concordamos com você sobre a primeira parte de sua pergunta, precisamos falar mais sobre as manifestações autísticas dos pacientes que chegam à idade adulta. Entendemos que essa ausência ocorra devido à natural tendência dos profissionais em falar sobre crianças, já que é nessa época que os primeiros diagnósticos são feitos, e também pelo grande empenho atual dos profissionais da área da psicanálise em estimular a realização de diagnósticos precoces, antes dos três anos de idade da criança, em função da plasticidade cerebral. Este fato favorece que as experiências emocionais vividas no transcorrer do trabalho psicanalítico possam promover alterações neuronais, as quais possam vir a colaborar no desenvolvimento emocional.
      No atendimento às crianças com manifestações do autismo existem grandes desafios técnicos justamente pelo fato destas não terem desenvolvido a linguagem e nem a capacidade de brincar, fatores que promovem grandes mudanças na técnica clássica da psicanálise. O psicanalista que atende alguém nessas condições precisa estar preparado para ser ativo e resgatar o paciente de seu recolhimento.

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    1. Uma criança portadora desta mutação no cromossomo X necessitaria ser avaliada por uma equipe multiprofissional, ou seja, pediatra, neurologista, geneticista e psicóloga, no mínimo. Existem vários pontos que precisariam ser pensados, como: idade; grau de comprometimento cognitivo; se a criança desenvolveu mecanismos autísticos, em que grau. Em sua área, como psicólogo, seria interessante a avaliação das condições de funcionamento cognitivo, se há retardo metal e em que nível e depois avaliar se seu sobrinho poderia aproveitar algum tipo de abordagem a respeito de sua subjetividade.

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