Mês: agosto 2014

Quando a análise chega ao fim?

A psicanálise é, muitas vezes, tida como um processo longo e interminável. Quando saber que um processo analítico chegou ao fim? Em que momento se pode considerar que o analisando está curado? Faz sentido falar em “cura”, em psicanálise? Tais questões, complexas, são o objeto do artigo a seguir, da psicanalista e membro da SBPSP, Yeda Saigh. Sem colocar um ponto final nessa reflexão, a autora nos abre caminho para compreender o que significa o término de um processo analítico.

Por Yeda Acide Saigh*

Minha intenção ao escrever esse artigo é refletir não apenas sobre o término de análise como processo, mas também sobre a dificuldade de desligamento entre analista e analisando. O analisando que não consegue desvincular-se do analista parece não ter ainda um objeto interno com o qual possa contar para exercer a função analítica. Desse modo, podemos ver a análise como um aprendizado, que consiste na introjeção, pelo analisando, da função analítica; ou como uma tentativa de o paciente conviver com uma dependência de seus aspectos infantis em relação ao objeto provedor (analista). Se a sua dependência for aterrorizante, o analisando exigirá um objeto idealizado, um analista fantástico. Se a dependência puder ser controlada, se o analisando aceitar conviver com suas carências, suas dependências, se tiver algum objeto com o qual possa lidar, não-idealizado, mas que o ajude a dar conta da situação de dependência, ele não regredirá tanto. Em um certo momento, espera-se que possa superar tal situação e continuar a caminhada sozinho.

Trata-se de avaliar como o analisando se relaciona com a sua vida mental – e isso é limitado –, pois não se espera que o analisando saia “curado”, que saia sem “atuar”. Não é esta a idéia. O objetivo da análise é ajudar o analisando a ganhar uma maior familiaridade com o seu mundo interno, com o seu universo psíquico. Nesse sentido, a análise é interminável, não há interrupção. O que termina é a relação analista-analisando, a situação de análise. A análise terminaria, assim, quando analista e analisando deixassem de encontrar-se para a sessão analítica. Na minha experiência, uma análise termina geralmente quando o paciente está muito mais apto emocionalmente para começá-la; é uma pena! Porém, a vida não é só análise. O analista e o analisando que se dão conta desse tempo, que é um dos aspectos que delimita o processo analítico, poderão elaborar de maneira mais satisfatória quando deverá se dar o término da análise. Para tudo, no entanto, sempre haverá um tempo certo, não-datado, não-estabelecido, que dependerá da história de cada análise.

 

*Yeda Acide Saigh é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, diretora financeira da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, doutora em psicologia clínica na Universidade de São Paulo é membro da Budget & Finance Committee – International Psychoanalytical Association.

SUICÍDIO E PSICANÁLISE

Por Sandra Maria Gonçalves

Viver implica sentir prazer e dor. A ciência médica, hoje em dia, nos propõe alívio para qualquer dor física.

Quanto à dor psíquica, aquela angústia inerente às nossas perdas, frustrações, escolhas, imperfeições e limitações, a natureza nos dotou do sono para não termos que enfrentar a realidade o tempo todo, sendo que o sonhar nos ajuda a organizar e dar sentido às experiências prazerosas, enigmáticas ou dolorosas vividas durante o dia. Mesmo acordados não precisamos estar o tempo todo em contato com a realidade, podemos fantasiar, ou seja “sonhar acordado”.

O suicídio é um sono sem sonhos do qual não se acorda jamais.

Para algumas pessoas o sono e o sonhar são suficientes; outras buscam as opções criadas pela cultura: álcool, drogas, psicofármacos; para 3 mil, diariamente, segundo a Organização Mundial da Saúde, só o suicídio é visto como solução. Por quê? Porque a capacidade para lidar com os afetos dolorosos sem que o Eu se desagregue é extremamente variável entre as pessoas e também na mesma pessoa ao longo da vida.

Cada um comete o ato suicida por razões singulares. Vingança, raiva, autopunição, culpa, desesperança, vergonha, humilhação, inferioridade são estados afetivos comumente narrados pelas pessoas com ideias suicidas, mas sob estes subjazem outros que no momento não estão acessíveis à percepção da pessoa. Esses afetos vão se tornando intoleráveis, as ideias suicidas vão aparecendo, preparações para o ato começam a ser construídas e em determinado momento o controle egóico entra em falência e o ato ocorre.

A psicanálise nos ensina que em todo evento psíquico há conflito, há dois lados: no caso do suicida é entre a vontade de matar o corpo e a vontade de sobreviver. O suicida espera que vá existir um “estado de não sofrimento”, quando na realidade não existirá “estado” nenhum, apenas um puro corpo morto.

A lógica do suicida não é a lógica comum, mas para este faz todo o sentido. A pessoa deve ser levada a sério em suas ideias. Quanto antes estas forem identificadas maior é a possibilidade de ajudar a pessoa a se reconciliar com seu lado que quer sobreviver, dando significados que tornem suportáveis a dor de viver nesse mundo que ela quer deixar e, quem sabe, modificar sua convicção suicida.

*Sandra Maria Gonçalves é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

DEPRESSÃO

Vincent van Gogh - Old Man in Sorrow

Vincent van Gogh – Old Man in Sorrow

Para a Psiquiatria, a depressão é uma alteração do humor caracterizada por tristeza profunda, acompanhada de apatia, desânimo, inapetência, desinteresse sexual e pela higiene, insônia e um sentimento de falta de sentido na vida. Esses sintomas podem ou não se alternar com seus contrários: humor exaltado, denominado “mania”, ou em grau mais leve,hipomania. Se por um lado os sintomas depressivos nos fazem sentir pesados e pesando aos que convivem conosco, os de mania nos fazem sentir ótimos, não necessitando de nenhum tipo de ajuda, o que, entretanto já não se dá com os familiares, que podem perceber certas inadequações, falta de limites, gastos exagerados e assim por diante.

Esses quadros nos levam a perguntar: se eu tenho esses sintomas, sou doente? Estou doente? O que se passa comigo?

A Psicanálise traz sua contribuição no sentido de pensar estas questões.

Embora não seja claramente detectável, há sempre um evento desencadeador dos sintomas, que pode ser um sentimento de perda, de luto. Às vezes ele pode passar despercebido, mas está lá.

O que acontece é que cada vivência desse tipo em nossas vidas “engancha” em outras anteriores, ainda que possamos não nos dar conta disso, potencializando cada uma delas.

É importante distinguir quando se trata de tristeza como resposta ajustada a situações normais de vida, mas que cada vez mais temos dificuldade de conviver. Infelizmente, estamos cada vez menos “preparados” para suportar os sentimentos de tristeza pois além de os evitarmos, estamos muito frequentemente em busca do prazer, da satisfação e da preferência imediata.

Pode parecer estranho, mas é muito comum em adolescentes sentimentos depressivos, pelo luto, um luto difícil de fazer diante da perda do corpo infantil, das vivências e expectativas da vida de criança que, comparadas às novas e complexas expectativas do mundo adolescente, eram familiares e administráveis pelo jovem.

Também parece estranho falar que mães que recentemente tiveram seus bebês, acolhidos com muito amor, também vivam sentimentos de luto – e elas vivem! Isto porque, além de muitas mudanças hormonais, o estado de humor da gestante vai sofrendo modificações: parece que toda sua vida se lentifica, seu foco de atenção vai se estreitando em torno de tudo o que diz respeito ao seu bebê, o que é muito interessante no sentido de colocar a mãe em sintonia com ele, favorecendo que lhe ofereça os cuidados que necessita.

Após o nascimento, a mãe se depara com o vazio no seu corpo, com as demandas do bebê, com os confrontos entre o bebê que havia imaginado e com o bebê real, que agora ocupa tanto espaço na sua mente e na sua vida.

Consideramos tanto essa ‘depressão’ pós-parto como a ‘depressão’ adolescente uma depressão normal. Isso não quer dizer que desconsideremos a ocorrência de quadros com características muito intensas, com enorme prejuízo para a vida da mãe ou do adolescente, ou de qualquer pessoa, e que demandam então uma atenção especial.

Nos casos de depressão em adolescentes, deve-se prestar muita atenção aos sinais que possam indicar algum risco de suicídio, especialmente se além do isolamento e dos sintomas já mencionados, surgirem também outros sintomas, tais como ideias estranhas, ou mesmo delirantes, acompanhadas ou não de alucinações.

No caso de crianças, para as quais costumamos ter a visão idealizada da “infância feliz”, muitas vezes fica difícil detectar sintomas depressivos. Crianças deprimidas podem ser vistas como crianças boazinhas e quietinhas, obedientes e tímidas. Por outro lado, as crianças com manifestações hipomaníacas podem ser confundidas com crianças decididas, ativas, bem resolvidas.

O que se passa é que vivências de perda provocam a necessidade de elaboração do luto, processo no mais das vezes difícil de conviver, muito sofrido para quem o vive e também difícil para as pessoas próximas suportarem. Desse modo, lançamos mão de mecanismos de defesa contra o sofrimento, sendo que a exaltação de humor, a já mencionada “mania” ou hipomania, é uma das formas de nos defendermos, de tentarmos não entrar em contato com nossas dores.

O problema é que tais defesas prejudicam o trabalho de luto, prolongando e até cronificando os sentimentos de perda, podendo acarretar em prejuízos para o desenvolvimento da criança e mesmo para o adulto conseguir encaminhar sua vida com maturidade.

Assim sendo, é muito importante que estejamos atentos aos sinais que possam indicar que uma tristeza deixou de ser algo “simples” e passou a se intensificar, afetando nossas vidas ou de alguém de nosso convívio.

Pode-se buscar tratamento psicoterápico, psicanalítico e mesmo em alguns casos pode haver a necessidade de administração de medicamentos como recurso auxiliar.

As famílias que ajudam seus membros a enfrentar, conviver e a superar perdas podem muitas vezes se ver diante de limites. Daí a necessidade de ajuda especializada, o que não deixa de ser também uma forma de demonstrar amor.

Onde buscar ajuda:

1. Centro de Atendimento Psicanalítico (CAP) – ligado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Rua Sergipe, 441 – Conj. 62 e 51
Higienópolis – São Paulo/SP – CEP: 01243-001
Telefone: (11) 3661 9822

2. Clínica Psicológica “Durval Marcondes” do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP

Av. Prof. Mello Moraes, 1721 – Bloco D
Cidade Universitária – São Paulo/SP – CEP: 05508-030

Telefone: (11) 3091 8248 e  (11) 3091 8223
Endereço Eletrônico: clinica@usp.br

3. Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae

Rua Ministro Godoi, 1484

Perdizes – São Paulo/SP – CEP: 05015-900

Secretaria da Clínica: Telefone: (11) 3866 2735 ou (11) 3866 2736

clinica@sedes.org.br

Fontes: Maria Thereza de Barros França – psicanalista e membro da SBPSP

 

Falando sobre autismo…

Autism

O autismo é um transtorno de desenvolvimento que tem sido cada vez mais discutido não apenas no meio acadêmico, mas também na mídia. Atualmente, fala-se em transtornos do espectro do autismo (TEA), que englobam desvios caracterizados por um comprometimento na capacidade da criança de estabelecer contato e de interagir, de responder aos estímulos sociais e na comunicação verbal e não verbal. Devido à diversidade de sintomas encontrados no grupo dos TEA’s, hoje utiliza-se o termo espectro autístico.

A clínica do autismo é complexa e diagnosticar o transtorno é o passo inicial para que o tratamento tenha resultados positivos. Recomenda-se sempre a atuação de uma equipe multiprofissional, que tenha conhecimento sobre o desenvolvimento psíquico infantil. Nesse universo, a Psicanálise tem contribuído na detecção precoce dos sinais autísticos e também no atendimento de bebês e crianças que apresentam problemas de desenvolvimento.

Quem quiser saber mais sobre o que caracteriza o transtorno, quais os sinais comuns, o que fazer quando há suspeita de autismo, tratamentos e melhoras no quadro, entre outras questões, vale ler a entrevista que segue abaixo, realizada pela psicanalista Luciana Saddi com a psiquiatra e psicanalista Elisabeth Lordello Coimbra, especialista no assunto.

1. O que se passa com uma criança com autismo?

Inicialmente a criança tem dificuldade em estabelecer uma ligação afetiva com os pais e com as pessoas à sua volta, geralmente demonstrando interesse pelas coisas, principalmente as que estão em movimento. O primeiro sinal observado costuma ser o fato de que a criança não aprende a falar ou fala pouco e repete sons ou palavras isoladas. Pode apresentar agitação e movimentos repetitivos de parte do corpo, ou do corpo inteiro, voltando-se para estes estímulos e retirando-se do convívio e apresentando prejuízo no seu desenvolvimento.

2. É possível traçar uma linha comum quando se fala em um quadro de amplo espectro? Há graus diferentes de acometimento?

A linha comum se baseia nos sinais descritos acima: desenvolvimento prejudicado pela falta de contato afetivo, dificuldade ou atraso na fala e autoestimulação. Sim, há graus diferentes de acometimento, com os sinais se apresentando de forma tênue, até graus muito acentuados, com maior prejuízo ao desenvolvimento da criança. Além disso, os sinais descritos podem se acompanhar de outras manifestações, como por exemplo, não olhar nos olhos, não brincar, ter sensibilidade a ruídos e aparentar não sentir variações de temperatura.

3. Quais os sinais que nos levam a suspeitar que uma criança sofra de autismo?

Os sinais são estes já descritos: falta de contato afetivo, prejuízo no desenvolvimento da fala e os movimentos corporais. O importante é que o diagnóstico seja feito o quanto antes. Ele pode ser feito mesmo em bebês que interagem pouco com os pais, por mais que eles se empenhem para promover o contato afetivo.

4. Quais medidas podem ser adotadas diante de uma suspeita dessas?

A família, ao notar ou ser alertada para uma suspeita de autismo, deve conversar com o pediatra e os professores, para verificar se a suspeita se confirma. Em caso positivo, como a questão central do autismo tem a ver com o problema das ligações afetivas, o profissional a ser procurado deve ser da área emocional.

5. De acordo com a visão médica oficial o autismo não tem cura, mas tem tratamento? E qual o tratamento mais adequado?

A medicina se dedica ao estudo das doenças e de acordo com o ponto de vista médico, o entendimento acerca do diagnóstico fica mais restrito e o prognóstico mais limitado. Nós, psicanalistas, não ignoramos o diagnóstico, mas trabalhamos com a saúde, com a possibilidade individual de cada criança em retomar seu desenvolvimento. A oportunidade que este blog nos dá é importantíssima, pois podemos apresentar informações que não circularam na mídia televisiva. É necessário que os pais sejam informados que há esperança com o tratamento psicanalítico, frente à perspectiva da possibilidade de retomada do processo do desenvolvimento de seus filhos, que está prejudicado.

6. Temos como avaliar qual criança responderá melhor ao tratamento? Quais são os indícios de bom prognóstico?

Quanto antes for feito o diagnóstico e iniciado o atendimento melhores serão as chances de bons resultados. Evidentemente a criança cujo desenvolvimento não estiver por demais prejudicado, responderá melhor. O atendimento psicanalítico precoce poderá se contrapor às forças a favor da manutenção dos mecanismos repetitivos corporais, fato que estimula o uso do corpo e dificulta o desenvolvimento da vida mental da criança. Fundamental para a boa evolução do tratamento é contar com a colaboração dos pais.

7. E em relação aos pais, qual a atenção que se dá aos pais de uma criança autista?

Elizabeth: A atenção aos pais é um dos aspectos importantes, pois geralmente esses pais chegam muito enfraquecidos em suas funções paternas e também desiludidos, após peregrinarem por consultórios de vários especialistas. É importante construir junto com eles o entendimento do que se passa com seu filho e ajudá-los a desenvolver a continência emocional que a criança e eles tanto necessitam, para lidarem melhor com as dificuldades que enfrentam.

8. Quais as dificuldades com a escolarização? É recomendada a inclusão?

As crianças autistas apresentam, além da dificuldade de relacionamento afetivo, um importante prejuízo no seu desenvolvimento simbólico, ou seja, têm um funcionamento muito preso ao concreto, e necessitam ajuda para construírem um vínculo com o aprendizado. A inclusão é recomendada devido à qualidade da atenção e disponibilidade afetiva que elas demandam.

 

*Elisabeth Lordello Coimbra é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA e Coordenadora da Diretoria de Atendimento à Comunidade da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

*Luciana Saddi é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

 

Grifes e autoestima

Até que ponto a definição daquilo que somos passa por aquilo que temos? Na sociedade de consumo, ser e ter tornaram-se categorias que se retroalimentam. Nesse contexto, as grifes têm um papel fundamental: elas atestam o valor do indivíduo e servem como medida de prestígio social. É sobre esse tema o interessante artigo “Grifes e autoestima”, da psicanalista e membro da SBPSP, Marion Minerbo.

Grifes e autoestima

Marion Minerbo

A sociedade de consumo é como um organismo vivo que tem por objetivo sobreviver, se possível, para sempre. Como qualquer sistema cultural, forma o pano de fundo da nossa vida psíquica: lemos o mundo por meio dos significados que esse sistema nos oferece. Um desses significados é a grife. Ela funciona como um distintivo – como o dos xerifes, ou os brasões de famílias nobres – de prestígio social.

O distintivo distingue. Você pode não estar nem aí com a marca das roupas que veste, mas ser um publicitário que adoraria ter no seu portfólio clientes importantes. Se for um estudante, não medirá esforços para entrar – e contar que entrou –  em uma faculdade “de marca”.

A equivalência entre o valor da pessoa e seu prestígio social é completamente arbitrária, mas nem por isso menos eficaz. É que aprendemos a ler os signos de prestígio da mesma maneira como aprendemos a língua materna. Por isso, a grife tem o poder de nos dizer quem somos e acabam por influir diretamente em nossa autoestima.

Como se pode perceber, o fascínio pelas grifes é, até certo ponto, normal e inevitável. Muitas pessoas recorrem a um banho de loja quando estão se sentindo pra baixo. E esse comportamento pode se tornar patológico, originando, por exemplo, a compulsão a comprar. Isto acontece quando a pessoa não tem outras fontes de autoestima além das grifes.

Sabemos de nós e do nosso valor por meio dos vínculos que estabelecemos. O primeiro, naturalmente, é o da criança com a sua mãe. Com a participação do pai e depois das outras instituições, constroem-se as bases da autoestima, que podem ser mais ou menos sólidas. É com elas que iremos enfrentar a vida.

A autoestima, contudo, é uma construção contínua. Nosso sentimento de ser e de existir dependerá sempre, em alguma medida, de como as coisas que fazemos, criamos e realizamos são lidas e valorizadas por nós e pelas pessoas com as quais convivemos.

Por esse motivo, pessoas que não conseguem realizar coisas que considerem valiosas ou tenham medo de que não sejam valorizadas pelas pessoas significativas podem se tornar presas fáceis da sociedade de consumo. Esses indivíduos acabam assinando uma espécie de contrato, que chamamos de contrato narcísico. A pessoa se obriga a comprar, garantindo a sobrevivência da sociedade de consumo. Esta, em troca, lhe garante, ainda que de maneira efêmera, o sentimento de ser, de existir e de ter valor.